Crónica 22. Um Filme no Gil Vicente.

Visualizações: 1

Crónica 22. Um Filme no Gil Vicente.

Naquele Domingo em férias de Natal no final de 1973, a tarde arrastava-se e eu ía ficando impaciente em casa! Moçambique era quente e Lourenço Marques estava um braseiro.

Seio-o quando abro e fecho a mesma gaveta vezes sem conta ao mesmo tempo que o calcanhar toca um ritmo sem nome numa bateria invisível. No meu quarto quente da Comandante Cardoso sentia-me a asfixiar. Lá fora estava abafado, ninguém se atrevia a descer à rua.

Fui à varanda e inspeccionei para além dos telhados em frente, perscutando os apartamentos virados para a Avenida Brito Camacho. Não via movimento de malta amiga. E o mesmo aconteceu quando alonguei a vista para a esquerda, esticado sobre o corrimão, procurando vultos no passeio daquele lado. Parecia que os meus amigos tinham sido sugados da face da Terra. Imaginei-os no quarto ou na sala de suas casas, a ler ou a ouvir música, refrescando-se a uma ventoínha ou talvez até junto a um ar condicionado!

Um cartaz do filme O Dia do Chacal, que passou no Cine-Teatro Gil Vicente, em Lourenço Marques.

Precisava de desafiar alguém para alinhar irmos ver o filme o Dia do Chacal! Rodado em 1973, a fita é um ‘thriller’ político dirigido por Fred Zinnemann, com Edward Fox no papel principal. Baseado no romance homónimo de Frederick Forsyth, publicado em 1971, é sobre um assassino profissional conhecido apenas como o “Chacal”, contratado para assassinar o presidente francês Charles de Gaulle no verão de 1963.

Não sei de onde me vinha a ideia, mas o certo é que algo me dizia que seria um filme bestial! Estava a ficar em pulgas … e detestava ter de ir sozinho!

Finalmente decidi arriscar, subi ao segundo andar e bati à porta da casa do Jorge. O mais certo era ele não estar, passava parte dos Domingos na piscina do Ferroviário. Para minha surpresa, aquele loiro mais alto que eu abriu-me a porta com o eterno sorriso trocista nos lábios. Não tinha ido à piscina, sentia-se cansado e tinha preferido ficar a namorar com o camaleão!

Ficou logo ali combinado que pelas 20:00 estaríamos no patamar da entrada do rés-do-chão! Ainda faltavam algumas horas, tinha de me entreter. Havia por ali banda desenhada para ler, cassetes para tocar, meia de dúzia de cromos para colar na caderneta, o que ía fazendo entre idas à cozinha para despejar mais um capilé com soda e gelo no copázio!

No regresso ao quarto lançava a vista ao escritório, o velhote continuava refastelado no grande sofá de couro, de auscultadores Dynaco colocados, os olhos cerrados, a cabeça em leves meneios, os cabelos arejados pelo vento artificial da ventoínha ao máximo, no prato do gira-discos Thorens TD125 um LP da Deutsche Grammophon girava, o mais certo era ele estar a ouvir Tchaikovsky!

Sabia que a mãe e o mais novo estavam no quarto de casal, o que tinha ar condicionado. Para fazer o tempo passar mais depressa agarrei em papel e lápis e pus-me a desenhar, gosto que me tinha ficado desde os Maristas, muito por culpa do Professor Silvestre, de Desenho. Ah Professor, se me visse agora, condicionado às linha geométricas do 6º ano, tão rigorosas e limpinhas, longe da liberdade criativa que nos incutia nas aulas de pontilhismo!

Eram 19h30! Vestir as Levi’s de linho azul e a Lacoste creme, meter à boca um croquete do almoço, abrir a porta e descer, sem antes dizer na ombreira da porta para dentro: “Estou em casa pela uma”!

Uma perspectiva da Avenida Fernão de Magalhães, cruzamento com a Avenida Paiva Manso; em primeiro plano a gasolineira da Sacor, a seguir a Auto Carmo, a Prodague Agrícola, a Casa dos Parafusos e a Auto Empório, estas duas já no Prédio Negrão que fazia esquina com a Avenida Manuel de Arriaga; a seguir está o edificio da Auto Pronto, em frente das Obras Públicas.

O Jorge já lá estava. Os dois andámos até à esquina da Comandante Cardoso com a 24 de Julho, em frente ao Safari apanhámos a Carreira nº3 dos SMV que percorria a 24 de Julho até ao cruzamento com Avenida Manuel de Arriaga, no qual virava à esquerda em direcção à Baixa. Descemos junto ao edifício das Obras Públicas, na esquina com a Avenida Fernão de Magalhães.

Ali à frente já víamos o Restaurante/Pastelaria Ateneia, do lado direito, quase em frente ao imponente Prédio do Montepio. À porta focámos o olhar naquela praçazinha ajardinada a poucos metros, do outro lado da Avenida Dom Luís I, que compunha a majestosa entrada para o Jardim Vasco da Gama.

Em primeiro plano o luxuriante Jardim Vasco da Gama; ao centro da foto começa a Avenida Fernão de Magalhães, tendo do lado esquerdo o prédio da Pastelaria Ateneia e do lado direto o Prédio Montepio (com o painel na empena); vislumbra-se a Avenida Dom Luís I, que desce para a Baixa, entre o Jardim e os ditos prédios.

A sensação de ar fresco daquela requintada sala acondicionada deixou-nos instantaneamente confortáveis. Escolhemos uma mesa de canto, o Jorge já naquela altura era o tipo de pessoa que gostava de observar a partir de posições de vantagem! Tínhamos 45 minutos até ao começo dos documentários. Então atirei-me a um linguado grelhado com batatas salteadas e salada mista, regado com um magnífico Aveleda. Rematei a refeição com um pudim molotof antes do café.

O Cine-Teatro Gil Vicente na Avenida Dom Luís I, em Lourenço Marque, no início dos anos 60.

De volta ao passeio, ao dobrarmos a esquina da Avenida Fernão de Magalhães com a Avenida Dom Luís I, vimos imediatamente pessoas aglomeradas perto das escadas de acesso ao ‘hall’ do Cine-Teatro Gil Vicente. Faltavam 10 minutos, um risco para os sem bilhete. Mas aquelas salas de cinema enormes, com plateia, 1º balcão, 2º balcão e camarotes raramente esgotavam. Fomos para o 1º balcão.

A lenta caminhada desde o ‘hall’ até ao lugar marcado é todo um ritual. Vai-se vendo quem está, cumprimento aquele ali, o casal acolá, rodo o pescoço para apreciar aquele corpo escultural que se atravessa à nossa frente, miro a expressão do Jorge, mais à frente vão três amigas em espaço exíguo na passagem de acesso, sentimos o aroma dos perfumes, parecem desemparelhadas, suspiramos para que o alinhamento dos astros as coloquem perto de nós, já estamos dentro da enorme sala e esperamos agora que o arrumador venha ao nosso encontro, toma os bilhetes e conduz-nos sem hesitação aos lugares.

Estamos a ajeitar-nos – as três jovens desacompanhadas não estão por perto – quando subitamente a sala escurece, vão começar os documentários. A Filmes Castello Lopes encarrega-se de entreter os espectadores durante cerca de 20 minutos com actualidades filmadas na Metrópole, no Ultramar e no Ocidente, uma rúbrica noticiosa chamada O Mundo Em Notícias! Aqueles eram, passe o exagero, alguns minutos de “televisão” à moda do Ultramar!

O interior do Cine-Teatro Gil Vicente em todo o esplendor de uma das melhor salas de cinema de Lourenço Marques à época.

O filme, como previa, foi excelente, arrebatador e empolgante, ficámos totalmente fixos no écran a ver aquela trama internacional bem protagonizada por um Edward Fox nos seus melhores tempos! Nunca mais esqueci aquelas peripécias do Chacal, a bala no final não atinge De Gaulle por um milímetro, inclina ligeiramente a cabeça no momento do disparo. O filme passou num canal generalista (não me recordo qual) da TV portuguesa recentemente.

Sair de um filme naquela idade, naquele tempo e naquela Cidade era como regressar à realidade do quotidiano depois de uma viagem por outros mundos distantes! Saímos da sala em silêncio, organizadamente, antecipando o ar noturno e abafado da rua.

Naquela noite, eu e o Jorge descemos 100 metros na avenida no sentido da Baixa e tomámos um táxi em frente ao Prédio Seguros Lusitânia!

Cheguei a casa ainda bem antes da uma!

Fontes das imagens: Delagoa Bay, HousesOfMaputo

Partilhe nas redes sociais

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Enable Notifications OK No thanks