Crónica 23. Rua Cdte Augusto Cardoso.

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Crónica 23. Rua Cdte Augusto Cardoso.

Era mais uma rua de Lourenço Marques, na qual habitei naquela ida década de 70, mais precisamente até Fevereiro de 1976. Rua de extensão relativamente curta pelos padrões de Lourenço Marques, ligava a Av. Brito Camacho a Sul à Av. Pinheiro Chagas a Norte, atravessando no seu percurso a Av. 24 de Julho e a Av. Afonso de Albuquerque.

Mapa onde se pode identificar a localização da Rua Cdte A. Cardoso em Lourenço Marques.

A Rua Cdte A. Cardoso era a típica rua da zona de transição entre a Maxaquene e a Polana, a qual referenciarei como sendo a área urbana da Alta entre os seguintes quatro eixos viários: Rua Pêro de Alenquer a Oeste, Rua do General Botha a Este, Av. Brito Camacho a Sul e Av. 31 de Janeiro a Norte.

Era uma zona de tipo residencial, com lojas de serviços ao r/c – cafés, pastelarias, restaurantes, boutiques, salões unissexo de cabeleireiro, mercearias, supermercados, papelarias, tabacarias, camisarias, lojas de moda feminina e masculina, etc. – algumas agências bancárias, escolas primárias, preparatórias, colégios e o Liceu Salazar, o Hospital Miguel Bombarda, parques e jardins, um par de salas de cinema, capelas (pelo menos as do Colégio Pio XII – Irmãos Maristas e do Hospital), o Museu Álvaro de Castro, clubes, como o Clube dos Lisboetas, associações, como a Associação dos Velhos Colonos, alguns hotéis e algumas pensões.

Aspecto da Rua Cdte A. Cardoso. A foto tem por detrás a Av. 24 de Julho e ao fundo a Av. Brito Camacho. Rua de pouco trânsito, muito arborizada, transmite uma sensação de calma e sossego, um recanto protegido do bulício da grande Cidade.

A arquitectura dos imóveis tinha a prevalência das casas residenciais, com ajardinados, garagem e pequenos quintais nas traseiras, e dos prédios até três andares de habitações fraccionadas. Entre aqueles surgiam aqui e ali verdadeiras torres, algumas com mais de 15 andares, nomeadamente na Av. 24 de Julho, na Av. Afonso de Albuquerque (pex o Invicta) e na Av. Pinheiro Chagas.

Existia na zona um bom parque automóvel, assim como várias carreiras de machimbombos dos SMV. As ruas e as avenidas, quer as secundárias quer as principais, mais largas com separador central, dispunham de largos passeios onde frondosas acácias bem alinhadas forneciam sombra e criavam tapetes brancos, amarelos ou laranja, conforme a espécie plantada.

Naquela área urbana de Lourenço Marques, à qual uns chamavam Maxaquene e outros Polana, conforme vivessem, sensivelmente, a Oeste ou a Este da Av. Princesa Patrícia, a Rua Comandante Augusto Cardoso e o casario ao longo dela, formavam uma recanto calmo e aprazível, de trânsito local, fora das grandes vias.

Tal como noutras ruas secundárias, era nos seus passeios, muros, acessos, entradas, garagens e quintais das traseiras que muito da vida dos jovens girava. Sendo entre a juventude do cimento o ‘mini-basket’ o desporto rei, não faltavam na rua, colocados em alguns dos pátios ou quintais, cestos e tabelas para os jogos de fim de tarde e de fim de semana entre os grupos de amigos.

Do lado direito da Rua Cdte A. Cardoso vemos a Escola Preparatória General Machado, assinalada por 1, instituição do ciclo preparatório, entre finais dos anos 60 e meados dos anos 70! Antes foi o Instituto Portugal e actualmente é a Universidade Pedagógica de Maputo. A seguir, o prédio (perpendicular à rua) da RUF – Residência Universitária Feminina, assinalada por 2. Ao lado, o prédio paralelo à RUF, assinalado por 3, com pátio para entrada de automóveis a acompanhar o longo edifício de 1º e 2º pisos de apartamentos, onde morávamos.

O nosso apartamento era num 1º andar, recuado em relação à rua, do prédio de apartamentos construído na longitudinal perpendicular à rua, paralelo e a seguir ao edifício onde estava instalada a RUF – Residência Universitária Feminina. O prédio dispunha de um longo pátio de acesso às garagens abertas, no qual dois patamares espaçados e elevados, ligados às escadarias de serviço, permitiam subir aos apartamentos. Aí vivemos meus pais, meu irmão e eu, de 1971 a 1976.

Logo a seguir ao nosso prédio, com frente para a rua, ficava o conjunto de 4 moradias gémeas da família Abreu – proprietários, nomeadamente, dos hotéis Turismo e Tivoli na Baixa de LM – que foram desenhadas pelo consagrado arquitecto Pancho Guedes.

Posso dizer sem falhar, sem ficar obnubilado pela distância temporal ou pela parcialidade afectiva e emotiva, que as minhas recordações desta época, ali na Rua Cdte A. Cardoso, são de forma geral muito agradáveis. Comparativamente ao que sobreveio depois, ali fui de facto feliz.

Fonte do mapa: blogue Malhanga.

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