Crónica 9. Um Bom Sentimento.

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Crónica 9. Um Bom Sentimento.

(Nota: esta crónica foi escrita a 11 de Março de 2018, nessa altura ainda vivia em Setúbal. O que ela diz aplica-se ainda hoje ao grupo e a todos vós.)

São 22:45 neste Domingo. Em Setúbal chove agora miudinho lá fora. Está uma noite fria, sei porque vejo que o termómetro indica 11ºC. Tem estado um tempo invernoso há mais de duas semanas seguidas. No interior há conforto, aqui neste canto onde escrevo estas linhas.

Perpassa por mim um bom sentimento. Que me revigora. Não conheço pessoalmente 99,99% dos membros deste grupo. Só posso deduzir que a esmagadora maioria é de Moçambique – no sentido de lá terem nascido e/ou vivido.

Por vezes, apenas a ler os comentários ou a interagir, dou por mim a recuperar sensações interiores que não experimentava há muitos anos. Já não são de amargura, antes são quase as mesmas de quando tinha 17 ou 18 anos, em Lourenço Marques.

Dizem que na terceira idade a vida começa a fechar um círculo, vamos a caminho de uma “meninice” que antecede o ocaso. Sinto aque ainda estou a alguns anos dessa fase, mas para lá caminho!

Já devem ter notado que gosto de escrever. Para mim, escrever é quase como falar. É um processo muito semelhante em mim. Com a diferença que as palavras não me saem pela boca, antes brotam através do teclado de um pc portátil! 🙂

A lagoa de São Martinho do Bilene, uma zona de veraneio e lazer, uma praia do Sul de Moçambique que frequentei muitas vezes, e que sempre me transmitiu um bom sentimento.

Escrevo para comunicar e também para partilhar memórias. Por vezes essa partilha toca em vós e conduz a diálogos assíncronos. É bom. Acorda-nos. Escrevo para criar pontes e para aproximar o desfasado e disperso.

Num registo um pouco diferente, por vezes também escrevo para frisar, vincar, informar e dar a minha opinião. Há temas caros a cada um de nós para os quais não encontramos interlocutor fora de um núcleo muito restrito da família e de alguns amigos. Na actualidade já não nos ouvem nem querem saber do mundo a que pertencemos no passado. E vamos calando, abafando e … esquecendo. E nessa penumbra da palavra retida, a memória adormece e nós sentimos-nos velhos, senão pior, esquecidos!

Então talvez o meu maior objectivo aqui neste grupo seja combater o esquecimento. Como uma vez comentei com um membro, tive a sorte de ter tido uma infância e uma juventude vividas com uma enorme intensidade, envolvido pela felicidade de uma família que me amou e num espaço comunitário e territorial que amei como não voltarei a amar outro!

Se tenho memórias vivas, é meu dever partilhá-las. E juntá-las a tantas outras, as vossas, que não vivi mas sobre as quais gostaria de saber! Porque as minhas e as vossas memórias são a Memória de Moçambique Português! 🙂

A todos desejo uma boa semana. Hambanine.

Fonte das imagens: Google.

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3 respostas a “Crónica 9. Um Bom Sentimento.”

  1. Avatar de Ana Queimado
    Ana Queimado

    Eu gosto tanto de vos encontrar aqui. Nesta terra minha! É virtual mas a única que tenho a única a que pertenço

  2. Avatar de Maria Fátima
    Maria Fátima

    E estas memórias funcionam quase como uma catarse ao sofrimento , que sentimos quando tivémos que
    abandonar a terra que considerávamos nossa e que tanto amámos.
    Ficou para trás( e apenas nas nossas memórias) um país único , com uma sociedade única que jamais será possível voltar a existir do modo que a conhecemos.

    1. Avatar de João Correia Vieira
      João Correia Vieira

      Exacto, é o que se passa no meu caso, escrever funciona como uma forma de transferir o peso dessas memórias – que angustiam a alma da gente – para o exterior da mente, alivia a pressão o acto de “dizê-las”, neste caso pela escrita digital, partilhando-as (ou não) com outros que sabemos terem um sentimento semelhante. De facto, a memória não é apagada, ela simplesmente perde parte da carga emotiva negativa, porque é enfrentada, assumida e racionalmente compreendida!

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