Crónica 10. A aula de Matemática.

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Crónica 10. A aula de Matemática.

Eu andava no antigo 7º ano, no recomeço das aulas a seguir ao Natal, decorria o princípio de 1975. Uma vez que a turma tinha sido reduzida a quinze alunos, dos trinta e dois que tinham iniciado o ano lectivo, fomos colocados na salinha dos mapas, no 2º piso do Liceu Salazar ou Liceu Normal 5 de Outubro como se passou a chamar!

Nesta foto do Liceu Salazar, podemos apreciar as galerias do 1º piso, que conduzem às salas de aula. É um edifício liceal de espaços amplos, escadarias largas de acesso aos pisos, volumetrias apreciáveis que criam ambientes de luz e sombra, que variam durante as horas de sol.

Por aqueles dias tudo se alterava. Foi implementada a nova estrutura directiva e consultiva para gerir o liceu, com representantes dos professores, dos alunos, do pessoal auxiliar e do comité directivo.

Este órgão, que apareceu do nada, estava já dominado pela tendência de esquerda frelimista, alinhada com as novas ideias revolucionárias. Daqui era veiculada para todo o liceu a nova deontologia pedagógica que seguia fiel aos princípios da ideologia marxista. A “boa nova” do Novo Homem Moçambicano tinha chegado em força e já era omnipresente!

Víamos cara novas entre o corpo docente, professores que estavam identificados com a nova ideologia, determinados a instalar uma nova mentalidade. A maioria eram alunos dos últimos anos da faculdade na Universidade de Lourenço Marques, todos brancos, de esquerda e cheios de ilusões, claro.

A nossa turma recebeu uma dessas professoras, de Ciência Política, um nova disciplina que veio substituir a banida OPAN – Organização Política e Administrativa da Nação! A professora era uma bela lasca de mulher que se sentava descontraída, segundo os novos hábitos, no tampo da secretária! Encarava-nos de perna cruzada e sorriso aberto, discorrendo sobre a matéria – livre e desformatada, de teor político e sociológico – mostrando uma generosa coxa até onde, lá em cima, o pouco tecido da mini-saia conseguia tapar! Devo ter mirado tanto aquela coxa e imaginado o que estaria escondido além dela, que não me recordo do rosto da professora, ou se alguma vez a olhei acima da cintura! Se o novo ambiente de esquerda era aquilo, na boa, vamos a isso, pensei eu!

Nesta foto do Liceu Salazar, que enquadra a fachada do corpo principal do liceu, incluindo a entrada principal e a estátua de António de Oliveira Salazar, podemos observar os canteiros e os arrelvados que decoram este espaço e que existiam noutras zonas do liceu. Eram nestes canteiros que os alunos, conforme se descreve nesta crónica, faziam o trabalho de limpeza e aprendizagem da mentalidade do Homem Novo de Moçambique!

Segundo a ideologia difundida a partir da cúpula – e nem ainda tinha sido a independência – e afirmada pelos mais engajados nela, os alunos, particularmente os brancos, tinham de ser reeducados.

O corpo de alunos ali na Polana era na sua maioria de classe média, média alta, jovens bem alimentados, educados solidamente pelas famílias, inteligentes, com muita elasticidade mental e flexibilidade suficiente para inventar pequenas estratégias e aplicar táticas e acções de recurso!

Sabíamos adaptar-nos, muitos de nós conseguíamos encarar os dias um bocado na desportiva! Meia hora de manhã para trabalhar nos canteiros de todo o liceu, para aprender o significado laboral do explorado ou assalariado que suja as mãos a revolver terra, cavar com a pá para experimentar as dores nas costas dos que trabalham na machamba, ou limpar folhas secas com o ancinho para interiorizar o trabalho em equipa na jorna dos contratados à força! Grandes lições receberam aqueles cerca de dois mil alunos, futuros jardineiros ou agricultores!

De tarde chegavam as carrinhas de caixa destapada. Havia que subir para a caixa para sermos levados até às barreiras. Eram apontados a dedo pelos dinamizadores os que íam, rapazes adolescentes que aproveitavam para fumar um cigarro ou até, alguns, puxar uma ganza no percurso até ao destino.

Chegados ao local, saltávamos para o chão e passavam-nos as pás. Tínhamos de apanhar a terra vermelha das barreiras nas pás e atirá-la para dentro de bidons cortados ao meio. Ficávamos uma hora nisto. Depois do regresso, com as roupas manchadas e as mãos vermelhas, lançávamo-nos para os WCs para nos lavarmos e sacudirmos as roupas o melhor possível!

Tudo era feito normalmente no meio de algazarra, em altos berros! A terra nos bidons servia para ser espalhada pelos canteiros por outros grupos de alunos. Era a reeducação, que levava à sintonia com o Novo Homem Moçambicano! De caminho, era também o prazer inconfessado da humilhação de quem era mandado fazer este tipo de trabalho braçal sem qualquer utilidade prática, a mando dos dinamizadores, muitos deles alunos negros e tropa frelimista em trajes civis!

Vista aérea do Liceu Salazar, na Polana. Na sala dos mapas, assinalada pelo círculo vermelho, funcionou a turma H do 7º ano, reduzida a 15 alunos depois das férias do Natal de 1974 e no reinício das aulas no começo de 1975.

Ao fim de algumas semanas, reparei que os mais politizados conseguiam evitar ir para as barreiras. Tinham uma forma de falar bem articulada, eram seguros de si e produziam argumentos de forma séria que influenciavam a mentalidade impressionável dos dinamizadores. Diziam que não era apropriado aos liceais capinarem ou cavarem, pois isso era uma perda do valioso tempo e dinheiro para a formação liceal, deviam antes estar a aprender matérias e saberes para serem capacitados na elevada tarefa de ajudar a erguer o Moçambique do futuro, livre do colonialismo e da velha mentalidade retrógada!

Quem assim argumentava com os dinamizadores eram os mais instruídos e industriados na fina arte de manipular, eram jovens de esquerda. Comecei ali a perceber o que era ser de esquerda.

Era ter encornado os ensinamentos e a retórica de Marx, que vivia à custa de Engels! Nunca obteve sustento através de uma profissão ao longo da vida. Dedicou-se aos superiores interesses da classe operária e trabalhadora, fumando de barba crescida, pensando na exploração do capital e escrevendo muito sobre a utopia da sociedade sem classes! Não passou de um inútil para a família e para o seu ambiente social imediato, foi um péssimo pai e um peso financeiro também para o seu irmão.

E no entanto, as suas ideias foram apropriadas por outros que, agitando-as perante milhões de idiotas úteis, fizeram revoluções, chegaram ao poder de partido único em ditaduras do proletariado, onde amassaram poder, fortunas e privilégios a governar sobre massas pobres em economias não produtivas, que empobreceram sociedades e destruíram países!

Na pequena salinha dos mapas criaram-se quatro ilhas. Uma ilha era formada por quatro carteiras viradas para dentro num quadrado. Os quatro alunos que nela se sentavam, encaravam-se entre si. Não encontrei problema nesta alteração, a loura e gira Paula ficava assim mesmo ali pertinho!

Nesta foto, tirada nas traseiras do Hotel Cardoso, na Polana, podemos ver o local das barreiras onde éramos levados em carrinhas de caixa aberta para carregar terra vermelha para bidons.

Este era o novo método pedagógico inclusivo! Nesta pedagogia a competição e o brio individual eram desaconselhados e até condenados! O aluno e a sua personalidade e individualidade devem esbater-se, apagar-se mesmo, tornando-se imperceptíveis, de forma que na igualdade e no cinzentismo sejam valorizadas e promovidas a solidariedade, a amizade e a interajuda, que servirão o grupo e o colectivo de uma sociedade feliz!

Numa ilha, os mais aptos servem de empurras e de muletas para os menos aptos, ou simplesmente preguiçosos tipo “estou-me nas tintas para o esforço”! Todos deviam cooperar e interajudar-se muito! A ilha a que eu pertencia tinha um colega em grande sintonia com o novo método, orgulhoso do seu penteado ao estilo Hendrix, que tinha grandes expectativas em relação a esta interajuda!

Por entre estas inovações aflorava em nós, adolescentes inteligentes e observadores, a certeza que anteriormente tinham sido dúvidas: estes métodos eram uma “machimba” que não levava a lado nenhum! E muitos, entre outras razões, foram deixando Moçambique. A turma ia ficando mais pequena, tal como a capacidade de encaixe de muitos de nós. No meu caso, o limite foi atingido naquela aula de Matemática!

A professora, após dar a matéria do dia, reservou os últimos 20 minutos para trabalho na aula, conforme os novos cânones. Durante esta actividade ainda na aula, o método pedagógico previa que os alunos se entre ajudassem. Eram mesmo estimulados e avisados para terem essa postura. Aqueles que compreendiam, no caso em apreço, como resolver equações a três incógnitas deviam dedicar-se a ajudar à compreensão de equações a uma incógnita os menos aptos!

O colega que esperava navegar pelo novo método sem problemas avisou-me “Eh pá, já estás no problema 3. e eu ainda não terminei o problema 1.”; “Onde tens a dificuldade?”; o colega disse e tentei explicar; daí a pouco, notando que eu estava a falar sobre o problema 4. com a colega Paula, o colega informou-me “Vais muito à frente, não pode ser assim, não estás a entender ou não tens vontade em cooperar na interajuda do grupo”; “Desculpa Xpto, talvez não tenha percebido, diz lá o que é que se pretende?”;”Todos do grupo devem fazer os exercícios, os mais rápidos devem esperar, para chegarmos todos a fazer o último exercício ao mesmo tempo”; sentindo algo em mim que ia frontalmente contra este método, tentei manter a calma “Se estás a sentir dificuldade em resolver alguma equação atrasada, basta que me perguntes, eu já fiz e posso ajudar-te a resolvê-la”; o colega indignou-se “Vejo que já estás a resolver o último problema”; “Claro, tenho conseguido resolver os exercícios anteriores … mas não me importo de te dar atenção caso queiras ajuda para enfrentar dificuldades com os exercícios anteriores”; então observo o colega a dirigir-se à professora “Sôtôra, o objectivo de termos esta actividade na aula é para resolvermos todos os exercícios em grupo, para ninguém ficar para trás, mas o João não espera pelos atrasados, já está a fazer o último, isto não é o que se espera de nós, parece que não consegue sair do sistema antigo de competição e engajar-se no novo método de ensino solidário, que valoriza o grupo acima de cada um … etc”; como um bomba lançada por um drone que ninguém esperaria, explodi, literalmente explodi!

O colega foi transformado, para espanto dele, da turma, da professora e até de mim mesmo, no alvo da minha explosão verbal, em cascata, em golfadas, num débito de ataque furioso e directo, andava a acumular demasiada pressão e ali a tampa saltou, e de que maneira! Descarreguei cada vez mais alto! Caguei, ia pensando, enquanto me ouvia a argumentar numa voz que troava pela sala e era ouvida além dela, que o liceu todo me oiça, não vai ficar nada cá dentro!

A professora de Matemática, Dra Beatriz Escudeiro.

Abismado primeiro, chocado a seguir e encolhido por fim, via-o a definhar perante o meu olhar focado e, acredito, ameaçador! A professora pegou nos livros e saiu! Na salinha fiquei eu e ele, o resto da turma lá fora. Afinal este gajo tem este lado? … estaria ele a pensar, transmite a ideia de ser um aluno acima da média, tipo educado, despreocupado, brincalhão, desportista, que não se chateia com nada, meio verde e pouco politizado!

Fui-me acalmando. Saimos os dois da sala, ele à frente. Lá fora senti o olhar de colegas, admirados e surpresos. Fiz uma leitura rápida e percebi imediatamente naqueles rostos a expressão de alívio e assentimento ao que tinham ouvido. Senti-me reconfortado e seguro de mim, por estar rodeado pelos que pensavam como eu!

Minutos depois dirigi-me ao colega com quem discuti. Estranhamente calmo, perguntei-lhe simplesmente se estava bem, trocámos cumprimentos, um até amanhã!

Foi a descompressão, minha e da turma. São momentos assim que definem o antes e o depois, pelo menos para quem está no centro deles. Não voltaria a ser o mesmo, tinha posto em marcha um processo íntimo e pessoal sem retorno.

Quase todos partilhávamos a mesma forma de ver o mundo! Aquilo a que depois ouvi chamar de Ocidente e de Direita! E como tantos, também achei incompatível a minha maneira de pensar com ficar em Moçambique! A discussão foi mais uma peça no puzzle da decisão final, daí a meses!

Fonte das fotos (excepto a foto da professora de Matemática): Delagoa Bay.

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2 respostas a “Crónica 10. A aula de Matemática.”

  1. Gostei muito!!!
    Nunca andei no Liceu Salazar. Só no Liceu d. Ana, porque depois vim para a Metrópole. Adorava voltar a LM! Como turista …

  2. Avatar de Jose Morais
    Jose Morais

    Muito bom . Concordância e entendimento integrais.

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