Crónica 3. O síndroma da felicidade.

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Crónica 3. O síndroma da felicidade.

Fomos “demasiado” felizes e bafejados pela sorte, pelo nascimento e vivência num contexto territorial, social e de modernismo em África, único, de verdadeiro privilégio – não tenho a menor dúvida hoje, em face do mundo actual em que vivemos – que nos marcou para sempre.

Posteriormente tivemos o azar de ser “triturados” pelos ventos da história. Esta é feita pelos homens, muitos, tanto em Portugal como em Moçambique houve cuja acção de lesa-pátria nos atingiu e fez de nós desenraizados a vaguear pelo mundo!

Na imponderabilidade da transumância a que estamos sujeitos – eu estou em Portugal há 34 anos e mesmo assim tenho a sensação que é tudo temporário, não sou daqui, não sei se fico, etc e tal, estão a ver? – nós somos seres únicos que ninguém conhece, as multidões que nos rodeiam não sabem de onde viemos, o que vimos, o que experienciámos naquela África sem paralelo!

Baixa de Lourenço Marques, hora de ponta na Avenida da República, junto ao cruzamento com a Avenida Dom Luís.

Mas como digo aos que me rodeiam, nós transportamos um legado, conferido pelo passado que foi cindido pela grande clivagem histórica – a descolonização europeia e a emergência dos países africanos – da qual fomos testemunhas directas (desprezadas e traídas, mas resistentes) e por isso temos a responsabilidade de o dignificar, de o desmistificar, de o descodificar, de o clarificar, de o manter presente e de o transmitir, não somente aos nossos filhos, mas à humanidade em geral – por escrito ou outros meios, inclusive por artefactos como um grupo no Facebook!

Aquilo que nos aconteceu não é mais uma hecatombe, um desastre, uma infelicidade ou uma perda, se bem que já foi tudo isso!

No mundo actual, aquilo que nos aconteceu, desde o nascimento até à saída de Moçambique e depois a vida que cada um seguiu, é uma oportunidade imensa, uma marca de sobrevivência.

O lado Ocidental, humanista, cristão, de economia de mercado, da civilização europeia ibérica com travo lusitano, que era na época de cariz corporativo sob um regime metropolitano de controlo da oposição, clandestina ou perseguida, sem abertura ao pensamento político alternativo, mas que desenvolvia e dava oportunidades

Somos, nós os nascidos em Moçambique (e nas outras ex províncias ultramarinas), os últimos, pois as outras descolonizações africanas, do Reino Unido, da França e da Alemanha (e também da Bélgica, de Itália e de Espanha em menor dimensão), foram mais de uma década antes (na África do Sul a maioria da população branca vai ainda permanecendo no país).

Cada um de nós alberga em si dois mundos, o colonial e o pós colonial, o antes e o depois da descolonização, que representam os dois lados opostos de uma entidade territorial, social e política (Moçambique):

o lado Ocidental, humanista, cristão, de economia de mercado, da civilização europeia ibérica com travo lusitano, que era na época de cariz corporativo sob um regime metropolitano de controlo da oposição, clandestina ou perseguida, sem abertura ao pensamento político alternativo, mas que desenvolvia e dava oportunidades;

O lado obscuro do Leste, marxista-leninista de matiz eslava, revanchista e aproveitador da mente primitiva e ingénua do negro, apoiado no complexo sino de subdesenvolvimento, que escondia ambição de domínio, de partido único e economia dirigida pelo comité central, sedento de impôr o terror sob a unicidade ideológica do homem novo, que excluía o colono ou quem simpatizasse com ele.

e o lado obscuro do Leste, marxista-leninista de matiz eslava, revanchista e aproveitador da mente primitiva e ingénua do negro, apoiado no complexo sino de subdesenvolvimento, que escondia ambição de domínio, de partido único e economia dirigida pelo comité central, sedento de impôr o terror sob a unicidade ideológica do homem novo, que excluía o colono ou quem simpatizasse com ele.

São duas esferas opostas da História que em nós coabitam e nos conferem uma maturidade e uma perspectiva histórica sem paralelo, a todos sem excepção!

Fonte das fotos de LM: Delagoa Bay.

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