Crónica 2. O Prédio Nauticus.

Crónica 2. O Prédio Nauticus.

Nota: as fotos do interior do Prédio Nauticus, nas chamadas Galerias Nauticus, são posteriores a 1975.

O Nauticus ficava entre a Av. da República e a Rua Joaquim Lapa, sendo que a frente era na primeira e as traseiras na segunda.

O Prédio Nauticus, da companhia de seguros com o mesmo nome, está em primeiro plano na Baixa de Lourenço Marques, um imponente edifício na Avenida da República. À esquerda do Nauticus (lado direito para quem está de frente), está o edifício do John Orr’s, pertencente a uma cadeia sul-africana.

O pátio interior, o piso, as lojas, as paredes, escadas interiores e a clarabóia, eram nos anos 70 do século XX do melhor que havia, no género arquitectónico, em África – zona comercial interior tipo galerias no rés-do-chão, vários serviços privados como dentistas, oftalmologistas, etc., em redor do enorme espaço vazio central do “fosso”, nos andares superiores.

Uma dessas lojas, a Poliarte, vendia EPs, LPs e cassetes! Recordo-me de acompanhar o meu pai no seu “vício” dos Sábados de manhã, entrávamos na loja e por lá ficávamos uma hora a inspeccionar capas, para depois sairmos com uma meia dúzia de LPs! Para a colecção!

A rotina era normalmente sair do Café Continental, onde já estavam os amigos de cavaqueira a uma mesa, quatro, cinco, seis ou até mais, e depois seguir até às Galerias do Nauticus! Eu era sempre o único “puto”, atento à conversa de adultos!

Outra perspectiva do Prédio Nauticus e da Avenida da República.

Por vezes pedia para sair por algum tempo, acelerava até à Baily para comprar com a mesada um EP de 45rpm da minha geração, qualquer “hit” que tivesse ouvido na rádio! Aproveitava e dava depois um pulo à casa Lido, ver se havia novos modelos de Tiger, ou se a Sanjo já sabia fazer sapatilhas!

Cerca das 11h30 despedíamo-nos dos amigos e de volta ao carro rumávamos ao Djambo para saborear as sandes de carne assada, que comprávamos para levar à mãe em casa a supervisionar o cozinheiro a fazer o almoço, adorava-as!

As Galerias Nauticus, no piso do R/c, populadas por lojas muito conhecidas em Lourenço Marques, como a Poliarte.

Aproveitava e pedia um sumo de laranja natural com muito gelo.

Naqueles dia quentes de sol abrasador, em que o alcatrão da avenida se colava às solas, ao fim de meio copo deglutido começava a sentir estalinhos no cérebro e a visão ficava em túnel, conseguia ver as raízes das plantas a nascer, tal era o prazer que sentia!

De regresso a casa, o pai colocava o primeiro LP no gira-discos, a mãe chamava para o almoço, o irmão aparecia suado da brincadeira com os amigos e ia lavar as mãos, os 4 ocupávamos os lugares à mesa. O Alberto trazia as bandejas da sopa, pratos, bebidas, sobremesa e café, o pai a meio, pedia-me para ir ao gira-disco virar o LP, a refeição terminava adentro da tarde.

Era um Sábado típico. Talvez pelas 15h fôssemos à Costa do Sol.

Ou será que há tourada? Ou futebol no Estádio da Machava? Não há? E basket, será que à noite o Sporting joga com o Desportivo?

Pormenor da clarabóia por onde passava a luz solar para iluminar as Galerias Nauticus.

Bem, de qualquer modo o mais certo neste Sábado é ficar por minha conta! Acho que vou aos Lisboetas, na Avenida Brito de Camacho, jogar bilhar e pingue-pongue!

Fonte das fotos: Delagoa Bay.

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