Crónica 17. O guarda do palácio.

Crónica 17. O guarda do palácio.

Crónica publicada originalmente em Setúbal, a 23/Abril/2018.

As aulas tinham já terminado. Estávamos em época de preparação dos exames do 2º ano do ciclo complementar (antigo 7º ano).

O ano lectivo de 1974/75 não tinha terminado em Julho. Todas as modificações no ensino ao longo do ano tinham provocado um substancial atraso na programação do ano escolar. Por isso foi decidido prolongar as aulas para levar até ao fim o ensino das matérias, o que arrastou o ano escolar até Dezembro.

Agora, a duas semanas dos exames, ainda antes do Natal de 75, eu preparava-me para as provas de fim de curso no liceu Salazar (nesta época chamado Liceu Normal 5 de Outubro).

Já desde os primeiros meses de 75 que na minha rua, e noutras circundantes, os enormes caixotes se enchiam de mobílias e haveres das casas das pessoas conhecidas, famílias e amizades da vizinhança ali na Rua Cmdt Augusto Cardoso, à Polana.

A zona desertificava-se a olhos vistos. Desde o discurso de Samora Machel após a sua entrada em Moçambique, e em especial a partir dos discursos na Beira, que o êxodo se intensificava.

Passei pela fase dos pequenos incidentes com o “frelo” a pedir os BIs, dos episódios mais sérios de abuso de confiança, quebras de privacidade, empurrões, ofensas e prepotências gratuitas tendo como alvo a mulher ou a jovem branca em zonas de Lourenço Marques mais periféricas.

Eram agora correntes as situações de denúncia no seio de empresas por parte de negros, mulatos ou até brancos alinhados com a Frelimo. Havia prisões por razões cada vez mais escabrosas, sem acusação, em condições sub-humanas.

Na empresa em que meu pai tinha posição de grande responsabilidade, o processo de denúncia e acusação pelos comités estava em marcha. O presidente da Administração da empresa em Moçambique, Sr Rui Campos, acusado do crime de sabotagem económica, foi preso na cadeia da Machava. Meu pai, por sorte em Braga para reuniões, foi avisado para não regressar. Seria também acusado do mesmo crime e preso no aeroporto, se regressasse!

Assim, entre Setembro de 75 e Fevereiro de 76, a família nuclear esteve cindida. Eu e minha mãe em Lourenço Marques e meu pai e meu irmão em Lisboa!

Fomos instruídos por amigos e leais funcionários da empresa para dizer sempre que questionados: a) sim, meu pai demorava-se por afazeres profissionais, mas regressaria e b) sim, eu não tinha planos para deixar Moçambique, após completar o ensino liceal iria entrar na universidade da agora Maputo!

Iniciámos a partir desta altura uma azáfama diária. Minha mãe e eu, após as aulas, empacotámos e expedimos pelos Correios da Baixa 42 pacotes de 5kg com objectos pequenos. Um furgão da empresa, que ajudámos a carregar com as melhores peças de mobiliário, transportou-as de nossa casa até ao porto. Ali foram transferidas para o contentor da empresa, onde alguns metros cúbicos nos tinham sido cedidos. O contentor levaria para Lisboa armários cheios de documentos e equipamento de escritório da empresa em Lourenço Marques.

A enorme estante, a secretária e as cadeiras do escritório de meu pai, feitas pela Maquinag; a mobília do quarto dos meus pais; as camas e as cómodas do quarto dos rapazes; os sofás, mesas e estante da sala de estar; os objectos de maior volume, como a máquina de coser, os equipamentos da cozinha e a minha bicicleta Peugeot, foi tudo oferecido aos meus dois tios paternos e aos meus primos direitos. Eles deram-lhe bom uso durante os meses largos que ainda permaneceram em Moçambique. A geleira e alguns electrodomésticos essenciais ficaram connosco até ao último dia, tendo sido levados por familiares a 31 de Janeiro de 76, durante a noite.

Não desconfiei do mainato que normalmente estacionava em modos lânguidos contra o muro na esquina da Rua Cmdt Augusto Cardoso com a Rua Xavier Botelho. Mesmo quando, vindo eu pelo passeio desde a Avenida 24 de Julho, várias vezes ele meteu conversa comigo. A completa ingenuidade pode ser também a maior defesa. Quando sorridente me dizia “tu também vais nos Portugal e os mainato dos rua vais ficar sem trabalho”, sempre respondi “eu fico em Moçambique porque é a minha terra, vou para a universidade depois de terminar o liceu” com o à vontade de jovem bem industriado.

Em Janeiro de 76, quando a nossa casa já estava meio vazia, a rua deserta e Lourenço Marques a escurecer a olhos vistos, eu entrei em modo de despedida!

Andava por ali a planar. A modificação radical no contexto urbano habitual cria uma imponderabilidade, anda-se em suspensão animada. Era assim que eu calcorreava as ruas. Via-os por todo o lado, soldados fardados, militares sem farda, moçambicanos da Frelimo ou tanzanianos, invariavelmente negros.

Mapa Google da zona da Polana, com marcações de ruas e percursos. Círculo azul 1 – minha casa; Círculo azul 2 – junção em T da Av Fernandes Tomás com a Av João das Regras; Círculo amarelo 3 – torres da Ponta Vermelha; Traço a vermelho – meu percurso a pé até à junção em T; Traço a verde – percurso de regresso a casa; Traço a laranja – limite da zona interdita da Ponta Vermelha; Traços a amarelo – avenidas e ruas.

Naquele Sábado de princípios de 76, com os exames no liceu terminados e ainda a aguardar pelos resultados, decidi fazer um registo fotográfico para memória futura.

Tinha comprado dois rolos de 30 fotogramas para a máquina fotográfica. Seriam 10:00. Saí de casa a pé (percurso a vermelho na imagem Google), entrei na Rua Cmdt Cardoso, virei à esquerda na Avenida Brito Camacho, passei pela Praça das Descobertas junto ao Liceu, segui pela Rua do Governador Simas, virei à direita para a Avenida Fernandes Tomás e desci em direcção à Avenida João das Regras. Ia tirando fotos. Ao chegar à junção em T com Avenida João das Regras, o meu campo de visão encheu-se com a volumetria das torres da Ponta Vermelha, incompletas e com as obras paradas.

Na junção em T, notei a corrente a todo o comprido barrando a passagem ao peão e aos veículos. Não fiz a associação mental rápida que estava na fronteira do centro nevrálgico da Presidência da República Popular de Moçambique!

Ali, eu era o fotógrafo a registar as últimas imagens de um mundo prestes a acabar. E um fotógrafo fotografa. Eu tinha de captar as torres de perto, numa perspectiva arrojada de baixo para cima, quase na vertical. Por isso passei a perna e deixei a corrente para trás!

Como fazia antes de cada pressão do obturador, anotava os parâmetros num pequeno caderno: velocidade de abertura, distância focal, distância aproximada ao objecto central da foto. A 30 metros da esquina, do lado interdito da corrente, pressenti um vulto pelo canto do olho. Voltei-me para ver um negro de rosto agradável que transparecia curiosidade. Vestia casualmente, tal como eu.

Ele: “Isto é zona proibida.
Eu: “
Aqui é zona proibida?”
Ele: “Não vês a corrente?”
Eu: “Vejo, pensei que era por causa das obras nas torres.”
Ele: “Aqui é proibido porque esta zona é onde está o camarada Samora e os seus ministros nos edifícios da presidência.”
Eu: “Sendo assim, peço desculpa, vou já sair daqui.”
Ele: “Mas me diz, o que estavas a fazer?”
Eu: “Olha, como estou no liceu e trabalho para o jornal do comité de turma, estou aqui a fazer uma reportagem para o jornal!”
Ele: “Isso é interessante, o que estás a fazer.”
Eu: “Vou mostrar-te, como também sou um amador de fotografia, registo neste caderno as variáveis de cada foto, para depois de reveladas avaliar.”
Ele: “Então conta que fotos já tiraste.”
Eu: “Tirei 20 fotos deste rolo na máquina, ali, liceu, jardim, museu, e ali, ali, ali, … e agora ia tirar às torres.”
Ele: “Estou a ver, mas há o plano?”
Eu: “Plano? Como assim?”
Ele: “Se queres tirar fotos às torres, podes ter um plano para sabotar a presidência …”
Eu: “(rindo) Eu? Sou aluno liceal, não sou agitador “reaça”, sou moçambicano, quero acabar o liceu para seguir um curso na universidade.”
Ele: “As torres têm altura com uma boa visão para fotografar a presidência para um plano de matar o presidente Samora …”
Eu: “(metendo a primeira) Posso saber o seu nome?”
Ele: “Vamos nos tratar por tu, eu mesmo não sou muito mais velho, chamo-me Fernando.”
Eu: “Ok Fernando, deduzo que sejas um militar da Frelimo?”
Ele: “Sim, sou militar da Guarda Presidencial e hoje estou de folga.”
Eu: “Vamos ao liceu, eu quero apresentar-te ao jornal, assim podes comprovar que não há plano nenhum.”
Ele: “(sorrindo) Estou a ver que és um gajo porreiro, não vai ser preciso.”
Eu: “Então, já posso ir?”
Ele: “Mas tenho de te pedir para me dares o rolo na máquina e o outro rolo que dizes que ainda não usaste.”
Eu: “Não há problema, deixa-me fazer isso já …”
Ele “Espera, espera, aonde moras?”
Eu: “Moro perto daqui.”
Ele: “Então podemos ir lá na tua casa.”
Eu: “Fernando, porque que é que queres ir a minha casa?”
Ele: “Estamos a falar como amigos, vejo que és estudante e tens um comportamento educado, não há problema …”
Eu: “Deu para perceber que tu também és educado e sabes falar bom português …”
Ele: “Eu também fiz o liceu.”
Eu: “Foi cá em Moçambique?”
Ele: “Não foi, fiz em Dar-Es-Salam, na Tanzânia.”
Eu: “Somos quase colegas, Fernando, é mesmo preciso ir assustar a minha mãe?”
Ele: “A tua mãe está em casa?”
Eu: “Está, é quase meio-dia e ela deve estar a preparar o almoço.”
Ele: “Eu posso acreditar que esse rolo não tem as fotos de um plano, mas preciso de ver se tens outras fotos na tua casa.”
Eu: “Em casa guardo fotos que tiro de Lourenço Marques, do liceu, da marginal, da piscina, do autódromo, com amigos …”
Ele: “Está certo, mas eu tenho de saber mesmo, se não tiveres dessas fotos comprometedoras, então está tudo bem.”
Eu: “(notando a exigência) Muito bem Fernando, vamos lá a minha casa, vamos ao meu quarto.”
Ele: “As fotos estão no teu quarto?”
Eu: “As fotos estão numa gaveta da minha secretária, no meu quarto.”
Ele: “Vamos então …”
Eu: “Vou pedir, como amigos, para entrarmos em casa e irmos logo para o meu quarto, está bem?”
Ele: “A tua mãe vai ter medo de ver um preto?”
Eu: “Ela vai ficar preocupada – a pensar no que será, não a avisei – ao ver entrar um adulto negro com porte de militar, mas assustada não vai ficar, nós vivemos no mato, lidámos com muitos negros …”
Ele: “Vamos só ao teu quarto.”

A zona de Lourenço Marques onde eu morava (o prédio está assinalado pela seta azul), mais precisamente na Rua Comandante Augusto Cardoso, a qual desembocava na Avenida Brito Camacho mais ou menos em frente ao Prédio Campolide. Era uma zona de transição entre a Maxaquene e a Polana.

Seguimos os dois até minha casa (percurso a verde na imagem Google). Fomos falando sobre fotografia. Sobre o liceu. Ele falou sobre o seu posto na Guarda Presidencial. Disse que gostaria de estudar na universidade.

Entrámos no pátio. A minha batida cardíaca aumentava à medida que nos aproximávamos da porta de casa. Meti a chave na porta, olhei-o nos olhos e disse sem falar “Tu prometeste, a minha mãe nada tem a ver”.

Flanqueei a porta, encaminhei-o ao corredor e depois à porta ao fundo. Ao passar em frente à copa, ouvi “És tu João? O almoço está quase pronto”.

No quarto mostrei-lhe a secretária, era ali que estudava. Abri a única gaveta. Tirei os envelopes de fotos. Enrolei e retirei o rolo com 20 fotos acabadas de tirar. Dei-lhe esse rolo e o outro, ainda por estrear.

Disse-me para abrir a gaveta da mesinha de cabeceira. Ainda abri, nada ali, claro. E no guarda-fatos? No guarda-fatos não guardo fotos, disse. Mostra lá.

Movi-me então meio metro, quase deslizando, impulsionado por um estranho automatismo. Evocações do ginásio, o corpo a encaixar na posição “koba-dachi” e o braço direito a pender.

A familiaridade acolhedora do meu quarto devolveu-me a noção da propriedade privada. A resolução fez-se por si, natural. Não levaria mais nada senão o rolo meio usado e o rolo por estrear. Estava em minha casa. As regras seriam as minhas.

Então dei por mim a dizer-lhe calma e pausadamente, em tom baixo, a voz a sair-me controlada, segura, afirmativa, quase numa ordem: “É tudo o que tenho sobre fotografia Fernando, já fizeste a tua avaliação, na gaveta não há nada sobre planos, no guarda-fatos também não há, minha mãe aguarda-me na sala, agora vamos sair do quarto e vou levar-te à porta”.

Passámos pela sala, minha mãe tinha voltado à cozinha. Abri a porta da rua. Ali ele perguntou-me “Onde se revelam as fotos?”. Com vontade de sorrir, respondi-lhe para ir à casa de fotografia na Avenida Dom Luís, antes da Pérola do Oriente, no Prédio Pott. “Quanto custa uma revelação?”, insistiu. “São cerca de 300 escudos por rolo”, disse-lhe.

Outro aspecto da Polana, com o Hotel Cardoso em primeiro plano e o Liceu Salazar em segundo plano, uma zona próxima da Ponta Vermelha.

Desci as escadas até ao pátio e despedi-me dele. Vi-o virar ao fundo e depois desapareceu para sempre.

Voltei a entrar em casa e fui à cozinha, onde minha mãe estava aguardando. “Vamos almoçar, mãe?”. Ela olhou-me disfarçando a perturbação e perguntou-me “Quem era aquele homem?”. “Nada de especial mãe, era um militar da Frelimo de folga, é guarda no Palácio da Ponta Vermelha, começámos a falar durante a minha volta.” Sem deixar de fazer o que tinha em mãos, perguntou “Trouxeste-o cá a casa porquê, filho?”. Tentei falar com naturalidade “Ele também se interessa por fotografia, vim mostrar-lhe algumas fotos!”. Minha mãe vincou “Pois, mas sabes que não gosto que tragas cá a casa pessoas sem antes avisares!”.

Então sorri para comigo. Ali adorei-a ainda mais. Mães de Moçambique que foram heroínas. As nossas mães.

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