Materialismo Dialéctico, Hegel, Engels, Marx, filosofia e o duplicador a álcool.
Liceu Normal 5 de Outubro (designação pós 25 de Abril do Liceu Salazar), Lourenço Marques, 1975.
1975 foi um ano atípico.
O Homem é feito de material genético que recebe em percentagem igual da mãe e do pai. No entanto, a sua personalidade começa a surgir nas interacções do seio familiar e a sua representação mental do mundo exterior a si vai sendo construída através do meio social. Como rezava o compêndio do 6º ano, “o Homem é um ser eminentemente social”!

Um cérebro em crescimento absorve e regista o mundo que o cerca. A mente nele alojada vai-lhe conferindo significados, condicionada pelo meio físico e social. À medida que o indivíduo atravessa fases do crescimento, o seu universo mental vai-se expandindo, a sua personalidade maturando, a sua rede social alargando e o seu olhar e expectativas sobre o mundo que o rodeia alongam-se de forma elástica.
Em circunstâncias ditas normais, o indivíduo progride na apropriação do seu universo em arcos de vivência cada vez mais alargados, inicialmente no local onde nasceu, depois noutros locais perto de casa, posteriormente na área da região, a qual se expande dentro do seu país para por fim atravessar fronteiras e seguir o seu destino aonde este o leva. O seu mapeamento mental e a sua pegada social expandem-se continuamente, até aos anos do ocaso.
Naquele ano de 1975, o curso normal da evolução de muitos milhares de jovens em Moçambique sofreu um revés. O contexto social onde nasceram contraíu-se e definhou. O seu horizonte empobreceu e reduziu-se na medida em que a sua rede social se evaporava. Foram rupturas definitivas que significaram para muitos de nós uma interrupção muito abrupta no desenvolvimento das nossas vidas e nas nossas razoáveis aspirações de futuro, em Lourenço Marques, na Beira e em tantas outras cidades e localidades de Moçambique Português.

1975 foi um ano de clivagem. De paragem, corte, desenraizamento e retrocesso. De mudança desordenada, em conflito emocional gerado pela frustração e pela revolta. De ameaça, inclusive, à integridade física. Foi um ano de empobrecimento, de perda e infelicidade. Para tantos de nós terminou todo um mundo de civilização, de expressão e convivência no espaço-tempo das nossas vidas.
1975 foi também o ano em que muitos de nós soube o que era viver fora da zona de conforto! Em que tivemos de nos adaptar a terrenos de permanente desconforto. Muitos passaram por todas estas mudanças, abrangentes e radicais, apelando com inteligência às suas capacidades civilizacionais entretanto adquiridas, para gerir o presente e aprender rapidamente a conviver com a insegurança, num processo acelerado de adaptação que foi necessário para minimizar prejuízos pessoais e maximizar as hipóteses de sobrevivência.
É sobre este processo de mudança e de teste constante às nossas capacidades intelectuais e sociais, no contexto do então já chamado Liceu Normal 5 de Outubro, que versa esta crónica.
Em 1975, eu frequento o 7º ano com 17 anos. Sou um rapaz normal a passar pela entrada na fase de jovem adulto. Faço a barba e a voz já mudou há algum tempo. Pratico desporto e tenho imenso interesse no sexo oposto. Destrutando de estabilidade no seio familiar, estou a ser preparado para um futuro auspicioso. Acalento sonhos e ambições. Projecto-me no futuro, em Moçambique. Tenho já plena consciência que há, na sociedade de ascendência europeia de Moçambique, a classe dominante (que inclui elementos de ascendência asiática, negros e mulatos) à qual pertenço, assim como aqueles que são socialmente mais destacados e influentes que a minha família e aqueles que são menos. Sei que pertenço à maioria da classe média de Moçambique, desafogada e detentora de propriedade. Deixei para trás um rasto de boas notas na primária, distinção na quarta classe, cinco anos de ensino elitista nos Maristas, sempre como bom aluno. Sou um jovem seguro, a despontar para a vida adulta e para os seus interesses e desafios.

É neste ano de 1975 que se me vai insinuar a percepção do meu posicionamento no mundo, acompanhada da tomada de consciência política. É no embate entre a ordem social anterior e a nova ordem que desponta, que me descubro a crescer aceleradamente no meio do caos social. Este processo espontâneo alimenta-se da minha curiosidade, abertura e interacção com o que me rodeia no dia à dia, da minha leitura e adaptabilidade ao descalabro social, da forma como vivo a rua, o liceu, o bairro, os locais que frequento na cidade, como interpreto as preocupações familiares e as cautelas e informações que o meu pai nos comunica.
São desta fase, no segundo semestre de 1975, as idas aos Maristas ouvir os meus antigos tutores, escutá-los a expôr a sua visão pessimista sobre o futuro; os torneios de futebol de salão na Escola General Machado, onde se sente um espírito solidário e de união entre os que permanecem; as descidas pelas barreiras ao pavilhão do Sporting Clube de LM para praticar ‘basket’ com um grupo reduzido de juvenis resistentes; as idas, três vezes por semana e descendo também as barreiras, ao Ginásio Clube de LM para praticar karaté sob a instrução do ex comando e 2º Dan, Elmano Jorge Caleiro; as tardes de piscina na Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra; os passeios a pé pela Polana, atento às mínimas mudanças na paisagem humana; o início de uma forte curiosidade em relação ao que se passava no Grupo Dinamizador do bairro, ali na esquina da Rua Cdte Augusto Cardoso com a Avenida 24 de Junho, a princípio sentado na fila do fundo para pela terceira ou quarta sessão começar a formular e a expressar algumas ideias que supus serem válidas no contexto do novo país que desejava viável; e principalmente a actividade liceal da semana, o centro da minha vida nestes meses.
No ano lectivo anterior, no 6º ano, eu tinha estudado Psicologia! Estímulos sensoriais externos, sensação, percepção, atenção e processamento mental! Agora, neste 7º ano de alterações curriculares, a Filosofia não era mais a do “antigamente”! Numa autêntica revolução pedagógica do ensino, veiculada e dirigida através do Boletim Oficial Provincial antes de 25 de Junho de 1975 e depois pelo novo Ministério da Educação do governo da FRELIMO, os filósofos a estudar deixavam de ser Sócrates, Platão e Aristóteles e passavam a ser Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Fredrich Wilhelm Nietzsche, Friedrich Engels e Karl Marx!
O genial docente do liceu, Professor Heliodoro Sebastião Frescata (Frescata), manteve o fato azul, a gravata verde e a dúzia de esferográficas, canetas e lapiseiras que lhe tomavam a boa parte de 10 minutos a arranjar na sua secretária, no início de cada aula! Decidiu que se iria adaptar, como tinha feito a vida toda, aos novos tempos, por isso agarrou na disciplina pelo colarinho e começou a dominá-la, para gáudio das suas turmas do 7º ano.

As directivas de mudança chegavam pelos delegados de turma. Eram decididas no comité directivo do liceu, onde se destacavam professores e alunos subitamente iluminados pela alvorada do Novo Homem Moçambicano, a ideologia geral da FRELIMO de Samora Machel para eliminar injustiças e a “exploração do homem pelo homem”, acabar com as classes sociais e inaugurar no país africano a felicidade do Homem na Terra!
Entre as actividades obrigatórias destacava-se a feitura do jornal de parede da turma. De forma artesanal, faziam-se colagens que eram fixas com pionés a uma enorme folha de cartolina, de recortes de jornais publicados na capital, de fotos apelativas, de artigos e peças de autoria de elementos das turmas, de comunicados e de notícias internas do liceu ou da própria turma, relevando um qualquer aspecto da vida nacional enquadrada pela nova ideologia.
Entretanto, ao Frescata terão dado liberdade para decidir sobre o livro oficial e de leituras adicionais a adoptar na disciplina de Filosofia que leccionava. Com aquele seu ar de perdido em pensamentos e sem paciência para os problemas terrenos da humanidade, comunicou-nos logo na primeira semana de aulas a obra que seguiria no decurso do ano lectivo. Havia a cópia dele e depois era o deserto em LM!
Não demorou muito para que decidíssemos compor, a partir dos 4 pequenos volumes do Frescata, livrinhos feitos com a duplicadora a álcool para serem distribuídos por todos os seus alunos! Eu e outros – recordo o Manuel Leão, o Luís Gouveia, o Jorge Rosas e mais alguns – já andávamos a tirar partido do súbito poder do corpo de alunos.

Esse poder recém adquirido era-nos conferido pelo novo sistema de ensino, através dos representantes no comité directivo e na assembleia do liceu, além dos delegados de turma. Estes incentivavam-nos a assumir o nosso engajamento nesta oportunidade histórica para a humanidade, a nova aprendizagem na caminhada para o Homem Novo Moçambicano.
Neste contexto, começámos a explorar o estúdio da rádio, a tipografia e as salas dos materiais. Eram destas que provinham tripés, cartolinas, canetas de feltro, tesouras, réguas, colas, agrafos, clipes e pionés para a preparação do jornal de parede da turma, uma actividade semanal.
Com aquele entusiasmo próprio de jovens saudáveis, atirámos mãos à obra. Primeiro, com cuidado, preparámos as folhas dos volumes originais desmontados. A seguir aprendemos a manejar com destreza o mimeógrafo FACIT, colocando a folha a duplicar, a tinta, o álcool e as remas de papel. Dando à manivela, observávamos as cópias a surgir, naquele cor-de-rosa escuro, com o deslumbramento de crianças.
Remontámos depois os 4 volumes da obra que o Frescata nos emprestou. Carregando várias caixas, fomos distribuir várias dezenas de cópias dos 4 volumes, com capa de cartolina e folhas de cópias duplicadas a álcool, pelos alunos do 7º ano que tinham Filosofia com o Frescata.
E assim, nas semanas e meses seguintes, fomos penetrando na História da Filosofia, de Iovchuk, Oizerman e Shchipanov!

O Frescata era um exilado do Salazarismo e do Marcelismo, que encontrou refúgio e trabalho como professor em Moçambique, no liceu Salazar. Homem extremamente culto, era um pensador livre e um inconformado, mais que um revolucionário. Era feito da mesma massa de um Agostinho da Silva, só que em versão mais prática.

Naquele ambiente de experimentação, a sua personalidade de homem à frente do seu tempo encaixava na perfeição. Se antes, no “antigamente”, o Frescata entrava na aula já cansado e desmotivado, pondo cada aluno a ler partes de um compêndio de Filosofia que ele detestava e ridicularizava, agora no dealbar do tempo novo, marxista-leninista e progressista, o Frescata sentia que podia finalmente dar largas à sua faceta de grande pedagogo e pôr a sua incontestável sabedoria ao serviço da iluminação daquelas mentes ainda jovens, ingénuas e ávidas de conhecimento.
Duas vezes por semana, na aula de Filosofia, os mais politizados (e os menos), liam, interpelavam e questionavam um Frescata que parecia dez anos mais jovem, o qual com paciência e um brilho nos olhos nos foi explicando a grande conversa filosófica em curso na humanidade desde os Gregos. Pelo meio comentava a situação política na Metrópole – onde decorria o Verão Quente do assalto do PCP e da esquerda do MFA ao Poder, o PREC – e as várias hipóteses de futuro para a sociedade e para a economia da RPdM.

Era no entanto já fora da sala, no fim da aula, que o Frescata se transformava num filósofo da Àgora, rodeado por uma meia dúzia de alunos que em diálogo extra curricular o perscrutavam e o testavam, arrumando e validando as próprias ideias de cada um.
E nesses momentos deliciosos, queríamos que ele nos dissesse de onde vínhamos, que esperança havia para África em geral e Moçambique em particular. Como seria o futuro da sociedade e quiçá da humanidade até ao fim dos tempos. Íamos encadeando as perguntas, libertando ideias sobre a organização social e política dos próximos anos que a mentalidade, maturidade e preparação de cada qual permitiam conceptualizar, e chegando a conclusões apressadas em saltos de pouca consistência, naquele modo ingénuo, curioso e generoso próprio dos jovens!
E no fim de mais 20 minutos do mestre com os discípulos, o Frescata seguia pelos corredores como se não fosse deste planeta!

Mas não percamos de vista o jornal de parede. O delegado (ou delegada) de turma não somente informava como veladamente exigia que produzíssemos artigos para comprovar o nosso progresso em direcção ao Homem Novo. Peças sobre temáticas relacionadas com a ideologia oficial, o que podia incluir dissertações sobre a dialéctica materialista, a abolição de classes, a luta do proletariado, a caminhada para o socialismo e por fim a perfeição, a sociedade sem classes, sem propriedade privada, sem patrões nem empregados, sem exploração do homem pelo homem, onde todos são iguais e todos são donos de tudo, que é o Estado, ou seja, o comunismo.
Ler os conteúdos daqueles volumes adoptados em Filosofia, depois escolher uma temática e por fim escrever um artigo para o jornal de parede, no contexto da ideologia oficial e do ambiente marxista-leninista do sistema de ensino prevalecente em 1975, no liceu Normal 5 de Outubro, exigia alguma inteligência, flexibilidade e elasticidade mental, emocional e intelectual de pessoas como eu, que no íntimo sentiam pulsões de rejeição completa por aquelas ideias.
Havia entre nós aqueles e aquelas que, por ingenuidade, por colagem interesseira e camaleónica ou ainda por medo ou por tradição livresca e intelectual de esquerda do meio familiar (estes mais raros), abraçavam estas actividades com a impetuosidade e a sofreguidão progressista de autênticos Lenines em formação. Eram estes que, na vivência liceal, me causavam maior nojo!

Conservei as minhas cópias dos 4 volumes da História da Filosofia, produzidas no duplicador a álcool FACIT, com capa de cartolina! Foram enfiadas numa caixa de cartão e despachadas para a Metrópole. Estarão nalgum canto, testemunhas silenciosas e poeirentas de um passado longínquo de uma outra era!
Neste relance sobre 1975, o ano de todos os perigos, eu e tantos outros saímo-nos menos mal daquele liceu. Terminei o 7º ano com 14 valores a Filosofia.
O Frescata e os 4 volumes, que recordo com carinho e saudade, deram-me as bases para compreender e interpretar esta ideologia que a URSS e todos os países da Cortina de Ferro abandonaram em 1989.
Hoje, são ainda aquelas bases filosóficas que me permitem vislumbrar os neo-seguidores dessa ideologia e as insanáveis contradições que ela contém, em Portugal e no mundo.
Fonte das fotos e imagens: Google, fotos pessoais.






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