Em 1972, cinco amigos compraram uma machamba a seguir a Boane. Machamba essa que é atravessada pela EN5 e por um curso de água com origem no lago dos Pequenos Libombos.
A machamba chamava-se (será que ainda se chama?) Sebenza, uma vasta propriedade com 2.500 hectares de área.


Aqueles cinco amigos amavam tanto Moçambique e confiavam de tal maneira no seu futuro, que não hesitaram em investir a maior parte das suas poupanças, obtidas e depositadas em bancos a operar em Moçambique, neste projecto agro-pecuário.
Uma decisão que foi tomada depois de ponderados vários factores. No fim, o preço justissimo pedido pelo vendedor, em face dos valores por hectare praticados a sul do Save, foi um factor determinante a favor da decisão!

Os sócios maioritários na Sebenza eram, além do meu saudoso pai, o Dr Armando Bordalo, advogado em Lourenço Marques e o incansável Sr Martins, com uma participação de noventa porcento em partes iguais. Duas parcelas de cinco porcento couberam ao Sr António Sousa Pinto e ao irmão Valdemar, ambos sócios gerentes na agência de viagens ao lado da Pastelaria Ateneia, na Avenida Fernão de Magalhães, em Lourenço Marques.
Destes cinco amigos já não estão entre nós o meu pai, o Sr Martins e o Sr António Sousa Pinto, pela informação que tenho.

O Sr Martins, meu grande amigo pessoal, era o supervisor geral da Sebenza. Geria o dia-a-dia na machamba. Entre outras responsabilidades, passava por ele a negociação do preço da carne vendida ao matadouro de Lourenço Marques, a contractualização do transporte e da transformação da planta do girassol com a fábrica produtora deste óleo e a contractação e a gestão da força de trabalho negra.
Ao Sr Martins devo a aprendizagem sobre as bases da agro-pecuária, nomeadamente a cultura do girassol e o gado bovino, caprino e suíno. Tinha muita paciência comigo e partilhava esta formação com permanente simpatia.

Em conversas entre ele, meu pai e eu, foram-me colocando por dentro dos aspectos da gestão de uma grande machamba em Moçambique.
Naturalmente, no contexto de outros herdeiros dos sócios, eu já perspectivava uma ligação à gestão da Sebenza, sobre a qual tinha os direitos da quota do meu pai. Esse futuro foi-me retirado.
O meu pai era encarado como o sócio mais habilitado na compra de equipamento (niveladora, tratactores, serras, equipamentos de pequena dimensão) e era ouvido sobre questões relacionadas com terraplanagens, desmatação de micaias e eventual abertura de canais de irrigação. Além disso, claro, dava a sua opinião e contributo em decisões da gestão geral da machamba. Dada a sua formação em engenharia, era ele nitidamente quem pensava as infraestruturas e o papel futuros da machamba, no contexto da região onde estava inserida.

O respeitado e educadíssimo advogado, o Dr Armando Bordalo, dava atenção e consultoria (em causa própria) sobre as questões legais relativas a obras, contratacção e relações económicas com fornecedores e compradores da produção da Sebenza.
O touro Charolês (raça francesa) foi adquirido em França; os dois touros Angus (raça brasileira) foram adquiridos no Brasil; o touro Sindi (raça paquistanesa) foi importado do Paquistão.
Na Sebenza, em 1975, existiam 1100 cabeças de gado, 200 cabritos e 100 porcos, para além de dezenas de galináceos.
A plantação de girassol ocupava 100 hectares.

A Sebenza estava equipada com vários currais para o gado, que incluíam área de lavagem com chuveiros; cercas, manjedouras e bebebouros para cabritos e porcos; um armazém e alfaias; uma habitação em alvenaria, equipada com quartos, sala, cozinha e wc para os sócios e suas visitas; várias habitações em alvenaria mais simples para os trabalhadores (não havia palhotas) servidas por uma instalação central com lavabos, sanitários e chuveiros.
Entre 1972 e 1975 ia à machamba uma a duas vezes por mês. Gostava de montar no cavalo, velho para as touradas, que compramos e a quem proporcionamos mais uns anos de vida.

Andava de jipe no trabalho da desmatação: corte de micaias com a serra eléctrica e pintura do coto com veneno para matar as raízes. Tomei banho naquele curso de água que atravessava a machamba.
A cavalo, de bicicleta ou a pé, percorri grande parte daquela nossa machamba. Era amigo de todos os negros, com quem estive ao lado durante muitas horas, com quem partilhei refeições e joguei futebol.
Agumas vezes houve em que caçamos durante a noite. O animal abatido proporcionava boas refeições, a negros e brancos.

E também, em diversas ocasiões, tivemos grupos de convidados, a quem oferecemos refeições de porco e/ou cabrito de criação, bem regadas com vinho da Metrópole.
A Sebenza, como tantas outras machambas com empreendimentos agrícolas, pecuários ou agro-pecuários, tinha uma função importante, para além do investimento e do retorno, em rendimentos, propriedade e prazer lúdico para os seus donos!

Ao estar inserida numa região de bom solo, rasgada por cursos de água com nascente no lago Pequenos Libombos, com eventual acesso aos recursos hídricos da barragem de Massingir, em articulação com outras machambas de dimensão semelhante ou maior, potenciava o uso racional e organizado das terras, através da conquista do mato para a agricultura mecanizada e moderna, produtora de verduras e legumes, favorecia a criação de gado bovino, caprino e suíno para a produção de carne e a sua distribuição sustentada para consumo através dos matadouros, e no caso particular da Sebenza e de outras com essa vocação, fornecia a matéria prima para as fábricas de óleos alimentares.

A nossa e as outras machambas a sul do Save constituíam milhares de hectares de terra trabalhada e bem gerida, que empregavam trabalhadores não qualificados e qualificados, negros e brancos, ou seja, eram uma importante fonte de emprego para as populações locais.
Fotos das imagens e fotos: Google Maps, fotos pessoais.






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