A partir de finais de 1973, princípios de 1974, o meu pai deslocava-se ao Norte de Moçambique com frequência, por vezes em longas temporadas. Nessas estadias no Norte, ficava a residir em Vila Cabral, a actual Lichinga. Estas deslocações mantiveram-se até Agosto de 1975.

Uma parceria entre a Tâmega e a Azevedo Campos Irmãos Lda (ACIL), o Consórcio Tâmega-ACIL, venceu o concurso de adjudicação da Estrada Centro-Nordeste. Custando cerca de 3 milhões de contos, foi à época a segunda maior obra pública em Moçambique depois da barragem de Cabora-Bassa. Os concursos da Junta Autónoma de Estradas (JAE) ocorreram durante 1971, com os trabalhos da obra a terem início no segundo semestre de 1972. A Centro-Nordeste iria ligar Vila Paiva de Andrade, em Sofala, a Montepuez, em Cabo Delgado, numa extensão de 1255 kms.

O meu pai partilhava com o engenheiro da Tâmega a responsabilidade pela direcção geral desta obra de grande dimensão. Além desta, a ACIL tinha ainda a seu cargo a obra da construção da EN 246 de Mocímboa da Praia a Mueda. O troço da EN 246 entre Diaca e Mueda era constantemente atacado pela Frelimo.
Sempre que o meu pai vinha a Lourenço Marques, fazia questão que eu o acompanhasse a certos encontros, normalmente em volta de uma mesa de almoço!
Avançemos então para os primeiros dias de Agosto de 1974, era então governador geral Henrique Soares de Melo. Estávamos a umas semanas da tomada de posse do governo de transição e ainda a meses da independência de Moçambique. Eu estava a 4 meses de fazer 17 anos!

Foi na manhã de um Sábado que o meu pai me disse que eu iria conhecer um Homem peculiar! Perguntei, peculiar porquê? Ele respondeu-me que, para além de lhe dever a vida mais que uma vez, esse Homem amava e lutava por Moçambique no Norte em Mueda. Fazia-o com inusitada coragem e larga autonomia, em coordenação com as entidades oficiais do Niassa e das Forças Armadas. Disse-me também que esse Homem tinha já atingido o estatuto de lenda nos territórios do Norte onde actuavam os “turras”. Agora tinha descido a Lourenço Marques precisamente para se reunir com o meu pai.
Saímos de casa na Maxaquene em direcção à Avenida Dom Luís. O calor nessa manhã era especialmente intenso. Após estacionar, o meu pai, de balalaica e calções como lhe era hábito andar por Moçambique, encaminhou-se para o restaurante snack-bar Vitória, ali no r/c do Prédio Pott, na Baixa da Cidade. Perscrutou do passeio a área da esplanada e seguiu para uma mesa vaga, comigo no seu encalço. À hora do almoço a azáfama nos restaurantes era grande.

Poucos minutos depois de nos termos sentado, observei o meu pai a levantar-se para acenar na direcção do passeio. Então pude ver um sujeito de boa estatura e porte desenvolto, louro, de barba bem aparada, de compleição seca e tez curtida pelo sol, que vestia uma camisa branca.
Percebi imediatamente que não era um homem qualquer. Movia-se sem pressa e com uma auto confiança evidente. Veio directamente na nossa direcção, no rosto a desenhar-se um leve sorriso de reconhecimento. Quando se abeirou, estendeu o braço de forma sólida e decidida, ao que o meu pai correspondeu no mesmo registo. Era notório o respeito mútuo daqueles dois, através do cumprimento vigoroso e efusivo, daquele modo tão africano de apertar a mão. Um aperto que transmite força, apoio e confiança, uma comunicação não verbal que significa “é bom vê-lo, finalmente, porque conto consigo”!

A mim o Homem cumprimentou-me com curiosidade. Após o que Francisco Daniel Roxo puxou a cadeira livre e sentou-se connosco à mesa. Ficou defronte ao meu pai. Optei então por me deixar levar pela dinâmica conversacional entre eles, escutando os apartes informativos que o meu pai me dirigia, aqui e ali esclarecendo-me sobre os significados do que era dito naquela conversa quase em código.
Ficou-me gravado na memória o arroz de cabidela maravilhoso, servido numa terrina de barro. Degustando com prazer, atento ao que diziam durante aquele almoço, achei-me a ser tocado pela influência magnética daquele visitante que não conhecia de parte nenhuma, estimulado por pressentir que era destinatário da total confiança do meu pai.
Daniel Roxo disse-nos que o vôo até Lourenço Marques tinha sido bom e sem incidentes; relatou que já há algumas semanas não tinham ocorrido explosões de minas, o combóio de viaturas civis, camiões e máquinas da ACIL estava agora melhor protegido desde que era acompanhado pela unidade de milícias negras que comandava, no trajecto do estaleiro para a obra e no regresso ao final de cada dia; informou que durante o último ataque da Frelimo, cerca de há mês e meio, um unimogue tinha sido atingido em cheio pela mina, o que provocou um morto e vários feridos entre as tropas regulares; garantiu que o contracto entre a ACIL e a sua unidade para-militar era do conhecimento e tinha o beneplácito do Estado-Maior e das autoridades administrativas distritais; afiançou que as tropas do Batalhão de Caçadores Nº 20 (Vila Cabral) colaboravam com as milícias negras; disse que o pessoal da ACIL estava agora mais calmo e a moral era bem melhor; em resumo, queria que o meu pai soubesse que ele, Daniel Roxo, no comando das suas milícias negras, tinha a capacidade, agora a ficar comprovada, para assegurar a protecção à coluna de veículos da ACIL; queria no entanto que se compreendesse que na guerra não há certezas, tudo se pode alterar a qualquer momento; em resposta a uma pergunta directa do meu pai, Daniel Roxo não hesitou em afirmar que a Frelimo não dispunha ainda e provavelmente nunca teria, em todo o Norte, de coragem para sair do mato para dar combate convencional porque sabia que os seus guerrilheiros seriam imediatamente aniquilados; para o fim concluíu que pensava que os prazos da obra poderiam ser cumpridos pela ACIL.

Estávamos a terminar o almoço quando o meu pai perguntou directamente a Daniel Roxo – para lá das questões de âmbito contractual de protecção da obra, máquinas e recursos humanos, entre a ACIL e o comandante das milícias – qual era a sua opinião geral sobre a situação militar no quadro da guerra em Moçambique, em particular no Norte.
Foi quando Daniel Roxo baixou a voz e disse quase em surdina, de rosto sério e olhos fixos no meu pai: “Senhor Engenheiro, não é recomendável vencer já a Frelimo e acabar com a guerra em alguns meses porque ninguém sabe o que fazer com a tropa do continente (cerca de 50 mil em Moçambique)! Os coronéis, majores e capitães iriam ter de interromper as suas gordas comissões e ter de voltar para os quartéis na Metrópole! E que ocupação se pode dar em pouco tempo ao grosso da tropa de praças a sarjentos? Mesmo que em Cabo Delgado e em parte do Niassa a situação militar seja grave por causa do novo equipamento recente da Frelimo, no resto do território de Moçambique os oficiais das Forças Armadas vivem bem e não querem perder esses privilégios!”.

Foi assim que Daniel Roxo, perante o silêncio entendido do meu pai, justificou o arrastar da guerra em Moçambique!
Ficou-me a nítida impressão – e mais podia ter sido dito ali no Vitória – que a verdade factual era que as Forças Armadas e o Exército Português tinham a capacidade para manter a guerra, através do seu dispositivo militar na ex província, pelo menos pelo tempo necessário para negociar uma outra solução para Moçambique.
O golpe de estado em 25 de Abril de 1974 veio pôr em marcha vontades de capitulação a qualquer preço, dissimuladas através de inventadas preocupações com o sofrimento do povo moçambicano (os negros) às mãos do colonialismo, numa dinâmica da ideologia de esquerda imparável, protagonizada por novas personalidades políticas, civis e militares que emergiram com a Revolução dos Cravos na Metrópole.
O que pôs em marcha acelerada – havia antecedentes de indisciplina e corrosão marxista nas FAs – agentes infiltrados de manipulação ideológica, corrosão moral, indisciplina na hierarquia militar e traição nos quartéis e no terreno, cuja acção organizada e determinada a objectivos de capitulação e abandono foi comandada e dirigida por cadeias de ordens emanadas desde a esquerda marxista militar infiltrada e controlada pelo PCP, na Metrópole.
Daniel Roxo, o lendário e temível comandante de uma unidade de leais e valorosas milícias negras engajadas na contra-guerrilha (30 homens da sua confiança) – tinham um raio de acção que se estendia pela província do Niassa, com incursões em Cabo Delgado e mais raramente a sul em Tete – combateu com alta eficácia contra a Frelimo, à margem das regras da guerra convencional. A partir de 1975 foi para a África do Sul onde serviu na melhor unidade de comandos da South African Defense Force, tendo sido condecorado por bravura e profissionalismo. Daniel Roxo morreu em 1976, aos 43 anos.

Quem era este Homem, deseja saber?
Em português, veja aqui.
Em inglês, veja aqui. (O mais completo relato da vida de Daniel Roxo, em 7 partes.)
Fontes das fotos e imagens: Delagoa Bay, Google, Google Maps.






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