Crónica 16. No bar do Hotel Zambeze.

Crónica 16. No bar do Hotel Zambeze.

Entra o Nasi Pereira, naquele princípio de tarde, no bar do Hotel Zambeze, fazendo um gesto largo ao franquear as portas de madeira e vidro. O homem era daquelas personagens maiores do que a vida, um duro pioneiro de Moçambique. Ele e o meu pai conheciam-se havia meia dúzia de anos, uma natural empatia e amizade surgiu desde que se cruzaram em 1958, no Chibuto.

No ambiente fresco do bar, o impacto da entrada de Nasi tinha feito com que meu pai se virasse ao balcão do longo bar onde cavaqueava com alguns presentes, também ali em busca do sossego e da penumbra suave que contrastava com o sol abrasador e a luz ofuscante daquele dia em Tete.

O Hotel Zambeze, em Tete, nos anos 60 do século XX.

Efusivamente, os dois homens abraçaram-se, desferindo palmadas nas costas um do outro – não se viam havia um bom par de anos – como era usual entre velhos amigos que se cruzavam por entre andanças da vida profissional, uma vida rica de experiências num meio africano quase virgem.

Nasi Pereira era um homem como há poucos, de uma enorme coragem, indomável, dono de si próprio, empreendedor em várias frentes, com fortes contactos no Estado onde conhecia tudo o que era administrador e chefe de posto, bon vivant, amante da vida e enorme contador de histórias, não da carochinha mas da epopeia que ele e tantos outros escreviam em Moçambique, a cada dia, semana, mês e ano.

Gostava muito do meu pai e nessa admiração era correspondido. Nasi ía muito a Tete e a Moatize. Nessa época a ACIL, a construtora onde meu pai era engenheiro responsável por obras adjudicadas pelo Estado na província do Índico, estava a construir o campo de aviação de Tete e a estrada macadamizada entre esta cidade, Moatize e Zobué, na fronteira com o Maláui.

Uma vista sobre Tete, com o Rio Zambeze em fundo, de 1964.

Íamos a Tete com frequência naquela época, entre 1961 e 1964, por variadas razões. O estaleiro da ACIL, assim como a aldeia ali erguida, chamada Moxoxo, ainda ficava a uns 20 kms para lá de Moatize. Com excepção de um restaurante, uma merceria e algumas cantinas em Moatize, poucos eram os serviços naquela zona.

Ía-se a Tete para quase tudo: cabeleireiro da minha mãe, compras de artigos para o lar, roupas, sapatos e higiene/toilete para meus pais e eu, reuniões de trabalho do meu pai com a JAE e a Câmara Municipal, algum encontro com pessoas amigas de outro ponto de Moçambique em Tete de passagem, ou deixando-me em casa de um casal cujo marido era trabalhador da ACIL e esposa era como minha avó/aia, meus pais deslocavam-se ao fim da tarde à capital do distrito uma vez por outra para verem um filme, estando de regresso pouco depois da meia-noite!

Voltando ao bar do Hotel Zambeze naquele começo de tarde de canícula, estávamos ali provavelmente a fazer tempo enquanto minha mãe estava no cabeleireiro.


Nasi Pereira nisto repara no vulto da criança ainda sentada no banco ao balcão. Eu devia ter 4 anos. Depois de termos saído de Chibuto em 1961, o meu cabelo que tinha sido à escovinha foi deixado crescer, era agora uma cabeça de cabelos encaracolados, caracóis que tapavam as orelhas e desciam pela nuca até ao pescoço, num “lindo” efeito!

Outra perspectiva do Hotel Zambeze, em Tete, nos anos 60 do século XX.

Ao seu estilo voluntarioso, despreocupado, em voz tonitruante, Nasi pergunta: “É sua filha, engenheiro, que idade tem a menina”?

Meu pai terá feito um esgar que não vi, mas ouvi-o a gemer: “Ó Nasi, é um rapaz, é o meu filho João”.

“Desculpe engenheiro, assim de lado pareceu-me uma menina, queira desculpar …” adiantou atabalhoado Nasi, adicionando sal à ferida!

“Ó meu querido amigo, não tem de se desculpar … João, filho, cumprimenta este senhor muito amigo do papá …”, aligeirou meu pai!

Escusado será dizer que eu achei instantaneamente, com os meus 4 anitos, o Nasi Pereira um grunho detestável, no meu pensamento infantil imaginei-o a viver em cavernas, e a custo lá consegui cuspir um “Sou o João, olá”.

Se no Chibuto usava cabelo à escovinha, ainda antes do fim desse dia voltei a ter cabelo à escovinha! Que durou até entrar para o 1º ano do ciclo unificado, nos Maristas em Lourenço Marques, já com 11 anos! E só voltei a usar cabelo a tapar as orelhas muito mais tarde, já nos anos 80 em Joanesburgo, mais de uma década depois!

Fonte das fotos: Delagoa Bay, Mapio.net.

Partilhe nas redes sociais

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Enable Notifications OK No thanks