Esta foto é evocativa de uma época da minha vida, era eu mufana!
Brincar desta forma, sabe-o bem quem o fez, é absorvente e conduz à perda da noção do tempo, a mente ocupada em criar mundos miniaturizados, cenários onde nos distraímos e divertimos com sensações inexplicáveis, que resultam da projecção que fazemos através da imaginação para o mundo dos crescidos!

Nesses momentos, que se podem prolongar por horas, o menino age como um deus, ele põe e dispõe, ele ordena e controla, numa “criação” em que assume a omnipresença e o poder absoluto, para lá dos limites e da “compreensão” dos elementos de brinquedo que compõem o “tabuleiro” onde se desenvolve aquele pedaço de pseudo-realidade por ele administrada, qual ser acima de todas as coisas, à medida que os acontecimentos, frutos da criatividade constante daquela mente activa, progridem no espaço e no tempo que enquadram as horas de “criação” – uma machamba, uma obra pública, uma quinta, uma caçada, uma povoação no mato, uma cidade, etc.
Em Mocuba, a família – pai, mãe e eu – instalou-se entre 1963 e 1967. Meu irmão nasceria aqui em 1967. A estrada Mocuba-Nampevo tinha ali levado o engenheiro da ACIL (Azevedo Campos Irmãos Lda) para a direcção / gestão da empreitada de uma nova via de comunicação em Moçambique Português!

O casarão de Mocuba era alugado pela companhia. Dispunha de r/c e primeiro andar, cozinha e copa em anexos externos mas contíguos e ligados, dependências para os empregados, garagem, arrecadação, um muro a delimitar quase 1 hectare, uma parte de quintal em redor do edifício, outra parte de plantação lateral ao edifício, separada da primeira por uma sebe de sisal.
No quintal havia ateiras (atas), goiabeiras (pêras goiabas), bananeiras (bananas) e uma grande árvore de tronco imponente, ramos grossos a partir de meia altura e copa de folhas verdes, densa, que criava uma grande área de sombra. A plantação lateral tinha ananaseiros (ananazes) e ao centro um frondoso canhoeiro, árvore que produz o canho (também conhecido por amarula).
Foram inumeráveis as vezes em que, depois da escola ao fim da tarde, durante a semana, ou antes do almoço ou de tarde, nos fins de semana, brinquei à sombra da árvore do quintal com a minha vasta colecção de miniaturas Dinky!
O plano era sempre semelhante: descia as escadas traseiras, entre a cozinha e a copa, que davam acesso ao terreiro do quintal; acompanhava uns metros a parede do r/c do casarão até uma porta que abria com a chave; na arrecadação estavam os meus brinquedos … e eram muitos!

Segurava em duas malas de plástico com 50 Dinkys cada no interior, as viaturas, camiões e máquinas arrumados em compartimentos próprios; depois dirigia-me para a enorme sombra na base da árvore, olhava em volta e escolhia onde iria criar o meu mundo imaginado! Eu seria o “criador” e tudo seria à minha imagem! ????
Então ali, sozinho (mas longe da solidão) à sombra e envolto na frescura e nos aromas que aquela mãe-árvore protectora me oferecia, começava a tarefa de “criação”!
Os limites da visão reduziam-se ao círculo de cerca de dois metros de diâmetro, as fronteiras do meu mundo. A casa, as dependências e as plantas frutícolas no quintal ficavam no “estrangeiro”, lá muito longe! Então as ruas em redor e o resto de Mocuba eram agora galáxias distantes!
Toda a atenção, energia, criatividade e inventividade estavam agora ao serviço de duas actividades interligadas e complementares: dar forma ao “mundo”, desmatando, terraplanando e expandindo a área ocupada e “civilizada”, e ao mesmo tempo colocar, arrumar, dispor e mover, fazendo os elementos – Dinkys, figuras humanas e a própria terra, folhas e ramos caídos – serem actores do desenvolvimento, numa trama encenada de vida, actividades e serviços, num destino determinista e fictício!
Eu definia o presente e o futuro, que davam continuação ao passado (os momentos anteriores), sentindo o poder absoluto naquele mundo de miúdo, imerso numa cápsula tempo-espacial, totalmente apartado do mundo real porque completamente absorto na minha própria “obra de criação”.
Quase hipnotizado sob a intensidade dos paralelismos ao mundo dos adultos que engendrava e concebia na mente, estava capturado dentro de uma bolha existencial, que só era rebentada de fora: “João, são horas de jantar, filho … arruma os teus brinquedos e vai tomar banho”!
Fonte das imagens: Google.






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