Crónica 7. As férias na Ponta do Ouro.

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Crónica 7. As férias na Ponta do Ouro.

As “férias grandes” do liceu em Moçambique, entre anos lectivos, eram exactamente isso, grandes!

No prédio Invicta morava o casal Guimarães, que eram amigos de longa data da nossa família. A Senhora era professora de Matemática e Físico-Química na Escola Industrial, situada na Avenida 24 de Julho, em Lourenço Marques. Ela depositava muita confiança em mim!

1 – prédio na esquina da Rua Princesa Patrícia com a Avenida Afonso de Albuquerque.
2 – prédio da Pastelaria Princesa, na esquina da Rua Princesa Patrícia com a Avenida 24 de Julho.
3 – Rua Princesa Patrícia.
4 – Avenida 24 de Julho.

Naquela primeira metade dos anos 70 eu frequentava assiduamente a zona: o Invicta (ficava temporadas em casa do casal), o prédio assinalado com 1 numa das fotos, na esquina da Rua Princesa Patrícia com a Avenida Afonso de Albuquerque, onde tinha amigos, a Pastelaria Princesa, na esquina da Rua Princesa Patrícia com a Avenida 24 de Julho, no prédio assinalado com 2 numa das fotos, a piscina dos Velhos Colonos, a casa de outro casal com quatro filhas e um filho que moravam na Rua Princesa Patrícia, entre a Avenida 24 de Julho e a Avenida Brito de Camacho e um cinema perto dali, na Avenida Afonso de Albuquerque. E tudo o mais nos arredores!

Naquele longo verão, em Agosto de 1974, durante as férias entre o 1º e o 2º anos do complementar dos liceus (antigos 6º e 7º anos), quisemos tratar-nos bem! Os cinco amigos decidiram então passar duas semanas na Ponta do Ouro.

Aspecto da Ponta Malongane, na Ponta do Ouro, no Sul de Moçambique.

Com a confiança de ser praticamente tratado como filho pela Senhora do Invicta, pedi-lhe a casa de férias emprestada (na foto da Ponta do Ouro, a casa está assinalada pelo quadrado vermelho), para lá passarmos duas semanas. O filho mais novo deles era um dos cinco. Ela acedeu de imediato, dando-me recomendações sobre a logística da casa e confiando-me as chaves!

Dois dos amigos moravam no prédio assinalado com 1 da foto, o mais velho teria já 18 anos. O quinto era meu colega no liceu, morava na Rua General Botha, o andar tinha vista para o Liceu Dona Ana de Portugal, ao lado do Liceu Salazar.

O Micota (alcunha dele) pediu ao pai, um médico goês em Lourenço Marques, que nos emprestasse o Land Rover (semelhante ao da foto). Ficou combinado que seria o irmão mais velho do Micota, já a estudar na universidade, quem nos levaria pelo trajecto Lourenço Marques, Matola, Boane, Bela Vista até à Ponta do Ouro.

Na manhã da anseada partida da casa do médico, acomodámos os sacos e subimos para o Land Rover. Éramos cinco rapazes empolgados com a aventura mas confiantes no destino!

Três horas depois, suados e já cheios de pó, estávamos a estacionar junto à casa de férias na Ponta do Ouro.

Google Maps do sul de Moçambique, onde se pode ver o percurso Lourenço Marques (Maputo), Matola, Boane, Bela Vista, Ponta do Ouro.

Aquilo tudo parecia-nos um luxo! Eu rodei a chave na porta, que abriu, e entrámos pela casa adentro! Começámos a arejar as divisões, fomos abrindo as janelas todas para estabelecer correntes de ar, desta forma ventilando e afastando o cheiro a mofo.

A seguir fomos investigar a casa, que não era assim tão grande, divisão a divisão. Tinha uma espaçosa sala comum, dois quartos, um WC e uma cozinha com porta para um pequeno quintal onde havia um tanque de lavar a roupa.

A sala comum estava demarcada de um lado numa sala de estar, onde três sofás brancos e dois pequenos puffs, todos insufláveis, rodeavam a mesa de centro, com uma estante encostada à parede. Na área reservada às refeições da sala comum, observámos um armário com loiças e avaliámos a boa mesa com cadeiras suficientes!

Num dos quartos vimos dois beliches, igual a quatro colchões. Um dos cinco teria de dormir no chão, no saco cama, todas as noites! O segundo quarto devia ser o do casal, estava trancado e assim ficou.

Quem dormia no saco cama era aquele que ficava com o fósforo curto, e na primeira noite esse azar calhou ao rapaz mais novo do prédio assinalado a 1!

A tarde desse primeiro dia foi passada por todos na praia, a malta estava sedenta de mar!

Um Land Rover parecido com aquele em que fizemos o trajecto de Lourenço Marques até à Ponta do Ouro.

Nos dias que se seguiram estabelecemos uma rotina não muito rígida: levantávamo-nos pelas 7h; após nos lavarmos e matabicharmos, íamos até ao areal; regressávamos cerca do meio-dia com passagem pela cantina no caminho para abastecer o que estivesse a faltar; o almoço era normalmente preparado por três de nós com alguns conhecimentos básicos; até às 15:30 ou 16:00 permanecíamos na zona em redor da casa, entretendo-nos na conversa ou a praticar lançamentos de faca de mato num alvo improvisado numa árvore; normalmente fazíamos uma segunda descida ao areal de tarde, que podia incluir uma deambulação de investigação na mata do morro; regressávamos com o sol já a pôr-se, desejosos de tomar banhos purificadores; se não houvesse voluntários para a cozinha, podíamos sair ao escurecer para ir jantar num dos poucos restaurantes, caminhando os cinco ao sabor da brisa refrescante do sul de Moçambique, a areia do caminho a afastar-se debaixo das solas das sapatilhas ou das sandálias de couro ou de pneu, ou até a entrar pés adentro dos que preferiam andar de chinelos; depois de jantados, sentíamos a chamada do bar da praia para irmos ver gente, trocar olhares com raparigas, dançar, fumar encostados ao muro do lado virado ao mar, ouvindo sons de música vindos de dentro misturados com o restolhar do Índico a enrolar-se no areal; de copos de Martini na mão, com o friso demolhado em groselha e forrado a açucar, íamos conversando pela noite adentro até ser tarde ou o frio nos forçar para o regresso a casa.

Sem rigidez, a rotina começou a ser interrompida aqui e ali.

Ou porque dois de nós galámos, abordámos e começámos a passear com duas raparigas, numa curta relação com as “namoradinhas de férias”, o que fazia com que de manhã ou de tarde fôssemos até à ponta do areal para nos embrenharmos na frondozidade das árvores do morro, explorando caminhos, exercitando a capacidade de engate e de sedução, descodificando sentimentos em relação ao outro sexo, trocando carícias e beijos.

Ou porque os cinco responderam à atracção do risco, quiseram colocar a sua coragem de homens jovens à prova e combinaram certa manhã, quais exploradores coloniais de princípios de século, “bater” a área em redor! Chegámos a penetrar 1 km na África do Sul numa faixa até 100 metros para o interior da orla costeira. A aventura terminou com uma chamada bem audível pelos altifalantes do posto de fronteira no alto do morro da ponta Malongane! Quem nos teria denunciado? O mais provável foi terem sido os binóculos do guarda!

Ou porque aconteceram os acidentes! E a cada um, este vosso conterrâneo procurava um buraco para se enfiar. A responsabilidade de deixar a casa no mesmo estado em que a encontrámos recaía sobre mim. Não, não partimos prato nenhum … foi pior!

A localização da casa de férias em que ficámos na Ponta do Ouro está assinalada pelo rectângulo a vermelho.

Primeiro foi um dos sofás insufláveis, nunca mais insuflou depois daquela pequenina fagulha o atingir, saída do cigarro de um de nós! Seguiu-se aquela cadeira da sala de jantar que não aguentou com o peso de quem se deixou cair nela, quebrando-lhe uma perna! Foi encaixada, colada e posta de lado! O tanque foi o próximo, aquele grande bloco de pedra escavada deu de si, só porque me sentei a baloiçar as pernas e a fumar sentado na serrilha de esfregar a roupa! Senti-o a ir-se lentamente para baixo, ainda saltei mas o tanque estatelou-se contra o chão duro de cimento e ficou sem a serrilha! Oh meu Deus, que mais podia acontecer? A cereja no topo do bolo foi quando na última noite ouvimos da sala o distinto e sonoro barulho de loiça sanitária a partir. Em estado de alerta e realmente preocupados fomos saber o que se tinha passado. Afinal não era caso para perdermos o sono, somente o rabo daquele de nós mais pesado tinha quebrado parte da retrete! Ali tinha de haver fissura já antiga, disseram-nos as nossas consciências envergonhadas. Lá colámos os três cacos como podémos e decidimos ir arrumar os sacos!

As duas semanas de sonho chegavam ao fim e nem os acidentes nos podiam tirar a sensação de alma cheia, prontos para o regresso de camioneta, já que o irmão do Micota também ele tinha ido de férias.

Faltava despedir-me de alguém que ficava, a minha “namoradinha das férias”! Naquela sincronia suave dos namorados, comunicámos por telepatia e afastámo-nos para além da vista da gente. Uma troca fugaz de um beijo, as mãos suadas que se separam devagar, o olhar que mantivemos enquanto nos afastávamos, segurando por mais alguns instantes o canal de energia amorosa que tinha brotado entre duas almas! Depois desviámos o olhar para que a vida de cada um pudesse seguir e eu subi para a camioneta. Nunca mais a voltei a ver.

Fontes da fotos: Google, Google Maps.

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