Crónica 6. Campeonato Nacional de Basquetebol 1974.

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Crónica 6. Campeonato Nacional de Basquetebol 1974.

Como aluno interno nos Maristas, na Avenida Afonso de Albuquerque, em Lourenço Marques, durante o 1º e o 2º anos do cliclo preparatório (1968/69 e 1969/70), passava os fins de semana com um casal amigo de longa data dos meus pais, que moravam no 14º andar do Prédio Invicta.

Os meus pais ainda viviam em Vila Trigo de Morais, no Colonato do Limpopo, onde meu pai dirigia a construção da estrada para a Aldeia da Barragem, adjudicada à empresa onde era engenheiro director de obra, a Azevedo Campos Irmãos Lda (ACIL).

O casal, com quatro filhos, continuou a receber-me quando, já semi-interno nos Maristas – meus pais entretanto compraram em 1970 o apartamento na Rua Comandante Augusto Cardoso – minha mãe acompanhava meu pai a Lisboa para as estadias e reuniões com o “estado-maior” da ACIL em Braga ou a Vila Cabral, onde estava em curso obra a cargo da ACIL. Naqueles anos, de 1970 a 1975, ainda não havia vídeo-conferência!

Na fase final do Campeonato de Portugal de Basquetebol, em 1974, que teve lugar em Lourenço Marques, o último campeonato com equipas “do Minho a Timor”, aconteceu eu estar a passar uma temporada em casa deste casal amigo no Invicta!

Numa certa tarde, esta eu na sala de estar após um dia de aulas a ouvir discos na aparelhagem do senhor, quando o ouço entrar em casa, vindo do escritório. Ao ver-me, veio ter comigo e disse-me logo sem delongas: “João, queres vir ao pavilhão do Sporting (Sporting Clube de LM) ver os jogos da fase final do campeonato nacional de basquetebol que se realiza durante esta semana?”

Eu nem queria acreditar! Ainda me fiz de educadinho, “mas veja, não tenho bilhetes nem o meu pai me deixou dinheiro para os comprar …”! Ao que o senhor atalhou “os bilhetes sou eu que tos ofereço”!

Eu caiu-se-me o queixo! Balbuciei um obrigado, que era um desejo tornado realidade, etc. Só que a excitação interior já era transbordante! Disse atabalhoadamente que ia para o quarto – partilhava-o com o filho mais novo do casal – e meti a cabeça debaixo da almofava para sufocar um berro de alegria!

Um coca-cola de gema, desde que deixei de ser interno nos Maristas em meados de 1970 tinha por hábito andar amiúde com a bola de mini-basket que meu pai me comprou debaixo do braço. Se ao andar pelo passeio via um cesto – que na Maxaquene e na Polana era comum encontrá-los fixos em paredes ou até nas árvores – fazia ali logo um lançamento! 🙂

Nas traseiras do prédio onde morávamos, na zona da serventia, pedi a meu pai para nos colocar um cesto e tabela de mini-basket. No piso de cimento do chão foi desenhado, segundo as dimensões normalizadas, as linhas e curvas do “garrafão”. Ali passamos a encontrar-nos, nós miúdos da zona, para jogos de um só cesto com duas equipas de três ou quatro!

A equipa do Clube Desportivo da Malhangalene que se sagrou campeã nacional de basquetebol de 1974 e alguns dirigentes da colectividade. Primeiro plano, esq. para dir. – Abel Moutinho (vice-Presidente da Direcção), João Domingues, António Araújo, José Cardoso, David Carvalho e Costa Leite. De pé, esq. para dir. – António Teixeira (o popular “Malhanga”), Avelino Ferreira (capitão), Carlos Gaspar, Eustácio Dias, James Romeo, Eurico Monteiro, Carlos Cachoreiro, Aureliano Graça (seccionista), Amélia Ribeiro (esposa do treinador Adão Ribeiro, ausente da foto), Aurélio Grilo (Director do Clube) e Joaquim Fernandes.

Aquela semana de finais de Maio de 1974 nunca mais chegava! Quando finalmente arrancou, o alinhamento dos finalistas era o seguinte: Clube Desportivo da Malhangalene, Sporting Clube de Lourenço Marques, Sport Lisboa e Benfica e Futebol Clube de Luanda. Em 5 dias, foram realizados 10 jogos no pavilhão do SCLM, ali junto às barreiras entre a Maxaquene e a Baixa.

Nos dias 25, 26, 29, 30 e 31 de Maio, tomado por uma agitação e ansiedade que não sabia controlar, acompanhava o senhor e um dos seus filhos, no Citroen boca-de-sapo, até ao pavilhão para mais um jogo.

Numa azáfama, os amantes do basquetebol, a grande maioria dos laurentinos que em Lourenço Marques se tinham habituado a seguir equipas de nível elevado, faziam fila e empurravam à entrada do pavilhão, com o pensamento nos lugares marcados dos seus bilhetes! Acabámos for nos sentar sempre ao centro e a meia altura do pavilhão, com visão privilegiada sobre o recinto de jogo.

Com o andamento do campeonato, eram notórias as paixões que se dividiam por entre as equipas de Moçambique e a equipa da Metrópole, já que ali poucos eram os adeptos da equipa de Angola! Em particular a rivalidade entre o Malhanga e o Sporting levava o entusiasmo dos seus adeptos ao rubro!

A lendária equipa de basquetebol do Sporting Clube de Lourenço Marques, segunda classificada no campeonato nacional de basquetebol de 1974. Primeiro plano, esq. para dir. – Carlos Santiago, Luis Dionísio, Artur Meirim, Tomané Alves e Mário Lopes. De pé, esq. para dir. – Abílio Monteiro (seccionista), Nelson Serra, Vítor Morgado, Terry Johnson (alcunha “voador”), Luis Almeida, Rui Pinheiro, Mário Albuquerque, Prof. Hermínio Barreto (treinador) e Mariano (massagista).

O olhar acompanha ao ínfimo pormenor o movimento de cada basquetebolista, a mente gere e interpreta a jogada, o coração entrega-se em apoio à equipa das cores que defendemos e o espírito projecta-se no tempo, e como procura crer a cada minuto na previsão antecipada da vitória, quer sempre mais, melhor e mais rápido!

Enquanto jovem rendido ao desporto e praticante amador de basquetebol, com ídolos entre os basquetebolistas de Lourenço Marques, e como moçambicano e sportinguista, vibrei naquelas horas a assistir aos jogos das bancadas, ali acompanhado no mesmo sentimento por outros seis mil (capacidade do pavilhão do SCLM) moçambicanos na sua maioria. Não me recordo de alguma vez ter voltado a sentir o jogo, os jogadores, a assistência e o ambiente da mesma forma, tão intensa e eléctrica, como aconteceu ali!

Cada batida, compassada ou em corrida, cada simulação e drible, cada arrancada para o cesto, cada elevação que antecipa o lançamento, naquela coreografia dinâmica do mais belo dos desportos de equipa, conduz à concretização da bola no cesto, com tabela, sem espinhas ou por afundanço … como num orgasmo!

E quando quem marcava era o Sporting, através do génio das jogadas urdidas por monstros como Mário Albuquerque, Rui Pinheiro, Nelson Serra, Terry Johnson e companheiros, eu explodia de alegria num pavilhão que vibrava com aquela energia sonora e ensurdecedora! 🙂

Mas foi a equipa de azul e branco da Malhangalene, do grande Eustácio Dias e seus companheiros, quem saíu vencedora no final, ao bater o Sporting no jogo decisivo!

A revista Tempo com um dossier especial dedicado ao Campeonato Nacional de Basquetebol de 1974. Na foto da capa da revista, um momento do jogo da final entre o SCLM e o CD Malhangalene, ganho por este último, que assim se sagrou campeão.

Se fiquei desapontado? Nunca! Eu tive a felicidade de ver os gigantes do basquetebol de Portugal pluri-continental ao vivo e a cores, entre eles as torres e os génios do basquetebol de Moçambique. Naquele dia foi uma equipa moçambicana que ergueu o troféu máximo, e não a de Portugal metropolitano! 🙂

Estatísticas do Campeonato Nacional de Basquetebol de 1974, em Lourenço Marques. Campeão: Clube Desportivo da Malhangalene.

Fonte das fotos: Delagoa Bay.

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Uma resposta a “Crónica 6. Campeonato Nacional de Basquetebol 1974.”

  1. Avatar de António Machado (Ticho)
    António Machado (Ticho)

    Também assisti a todos os jogos deste campeonato.

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