Ali a uma cadência de duas vezes por mês, entre 1971 e 1975, as duas famílias reuniam-se na cervejaria Imperial, no extremo oriental da Av. Pinheiro Chagas, ao Alto Maé.

A nossa e a família de um advogado amigo, colega de Coimbra do meu pai, que residiam na Av. Princesa Patrícia, à Maxaquene, em Lourenço Marques. Dessa família numerosa do advogado, habitualmente dois dos cinco filhos, o rapaz e uma das raparigas, juntavam-se a mim e ao meu irmão, para além dos adultos!
Invariavelmente, depois do telefonema ainda em horário de trabalho do meu pai ou do advogado, pelas 19h estávamos em casa para nos prepararmos. Eu, confesso, já a salivar que nem um perdido!
Os primeiros a chegar, depois de estacionarem o carro após todo o percurso pela Av. Pinheiro Chagas, ocupavam uma das mesas e pediam para lhe juntarem uma segunda mesa! Chegados os retardatários, encomendava-se o jantar. Éramos conhecidos.

Então o que vai ser senhor doutor? Senhor engenheiro, o mesmo do costume? Na verdade, a escolha era sempre entre ou o famoso bacalhau assado à Imperial ou os famosos camarões grelhados à Imperial!
Coca-colas para a miudagem, vinho, Laurentina ou 2M para os adultos. Depois das primeiras dentadas no pão com manteiga, os adultos entretinham-se em conversa coloquial sobre os temas da semana. Nós, quatro garotos, aguardavamos impacientes as travessas de camarão! O marisco, genuinamente moçambicano e pescado no canal em frente a Madagáscar, era de dimensões índicas, pecaminosas, fartas, dimensões à Moçambique.

Quando chegavam, de alumínio, as travessas com o material, delas subindo até às nossas narinas os vapores do grelhado e os aromas a marisco, os gestos ficavam apopléticos!
Era o ataque! Logo dois reluzentes camarões tigre, cortados a meio, de carnucha alva, ainda com o negro da grelha a espaços, o vermelho da casca a separar-se com facilidade, aterravam em cada prato. Depois, a manteiga derretida era escorrida da colher em cada camarão. Sobre o que se espremia meio limão.
Ao lado, em apoio, estavam as travessas de batatas fritas acabadinhas de fritar, salpicadas com sal. Montes delas, que decresciam a olhos vistos de cada vez que uma mão retirava algumas.

No deleite da degustação que se seguia, ingeria-se camarão, batatas, pedaços de pão embebidos na molhanga e coca-cola, em cadência rápida, uma, duas, tantas vezes quantas fossem necessárias até aos avisos do estômago, que estava atestado!
Os fios da mistura de manteiga liquefeita com os sucos do marisco desciam lentamente pelos antebraços. Perto da curva interior do cotovelo eram lambidos!
Simultaneamente, enquanto os adultos mais pausadamente negociavam as substâncias nutritivas, nós saltavamos de ideia em ideia, mais vivos e felizes do que alguma vez se pode ser!

Naquele ritual em redor do repasto de marisco ou de peixe numa cervejaria do Alto Maé, as amizades reforçavam-se, os planos surgiam e as ideias fervilhavam. Eram momentos de confirmação da identidade, de definição profunda de quem éramos, de afirmação do nosso espaço e de vínculo dos direitos que tínhamos. A segurança e a pertença configuravam a nossa existência.
Crescíamos mais um pouco ali, saciados, confiantes, seguros, solidários e felizes! 🙂
Fonte da foto de capa: Delagoa Bay.






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