Crónica 24. Os Coca-Colas.

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Crónica 24. Os Coca-Colas.

Chamam-se aos habitantes, nascidos e/ou residentes, da ex capital, Lourenço Marques, da ex província ultramarina de Portugal, Moçambique.

Logotipo da marca de refrigerantes Coca-Cola.

E digo chamam-se e não chamavam-se, porque ser Coca-Cola é muito mais do que ter nascido ou vivido numa cidade há muito transformada para além do reconhecível.

É toda uma forma de ser, identitária, que emergiu na absorção íntima, que se tornou inseparável uma vez instalada para sempre na alma, de toda uma cultura, forma de vida, vivência, modo de estar e de relacionamento com o outro, de expectivas presentes e maneiras de sonhar o futuro, únicos!

Tal como o médico nunca deixa de o ser depois de reformado, assim também um Coca-Cola não deixa de ser Coca-Cola porque mudou de lugar ou porque o espírito da sua Cidade se desintegrou em centenas de milhar de estilhaços dispersos pelo mundo inteiro!

Um yo-yo da Coca-Cola, semelhante aos que brincávamos em Moçambique.

Um Coca-Cola é … um Coca-Cola, esteja onde estiver! E dois Coca-Colas reconhecem-se imediatamente, seja em que circunstância for!

Um anúncio da Coca-Cola de 1967.

No seguinte texto, é dada a notícia da criação da Fábrica de Refrigerantes Mac-Mahon:

“Autorizados Henry Haye, Henrique Cabral de Almeida, Guilherme Gomes dos Santos, Otto Barbosa da Silva, Abílio dos Remédios Furtado, Gilberto Gonçalves Túbio, Carlos Smith Túbio, Manuel de Sousa e Santos, Luís Salvador de Almeida e António Lopes de Castro, a constituir uma sociedade anónima de responsabilidade limitada com o capital de 2.500 contos, dividido em acções nominativas de 250$, devendo 60 por cento, pelo menos, estarem averbadas em nome de pessoas de nacionalidade portuguesa e a sociedade denominar-se-á “Companhia de Refrigerantes Mac-Mahon, S.A.R.L.”, com sede nesta cidade, para explorar a indústris de fabrico da bebida conhecida por Coca-Cola, que tinha sido autorizado primeiro, por despacho de 21 de Março de 1950 e aprovado o projecto de instalação para a parcela n.º 550/15, dos subúrbios de Lourenço Marques. 8 de Setembro de 1950.”

E assim a Companhia de Refrigerantes Mac-Mahon, S.A.R.L. introduziu a Coca-Cola “made in Mozambique”, acabando por tornar-se um fenómeno de identidade cultural de Moçambique, especialmente dos nativos de Lourenço Marques, que eram conhecidos como os “Coca-Colas”.

Garrafas de Coca-Cola introduzidas em Moçambique em 1936, importadas da África do Sul.

Era um refrigerante para todos os efeitos incomparável! Ao que havia antes e ao que viria depois. Em sabor, aspereza, gás, potência a saciar a sede, a Coca-Cola em Moçambique Português não tinha rival entre todos os “flavours” regionalizados desta bebida americana icónica.

Não se fez antes, não existirá nunca mais, tal como a bebíamos! E por isso também, nós, os de Lourenço Marques, fomos e somos, para a posteridade, os inigualáveis Coca-Colas!

Reclame luminoso à Coca-Cola no topo do Prédio Santos Gil, em Lourenço Marques.

E ser de Lourenço Marques confunde-se com ser Coca-cola em todas as dimensões que a alcunha encerra! Se Porche transmite uma ideia completa do génio teutónico na indústria automóvel, Coca-Cola engloba imediatamente a idiossincrasia, nas suas infinitas matizes, dos naturais de LM!

Uma das primeiras garrafas da marca de xarope Coca-Cola para ser misturado como refrigerante de água gaseificada, de 1894. A fórmula foi inventada pelo farmacêutico John S. Pemberton como tónico para as doenças mais comuns. A cocaína foi abandonada em 1914.

Não há nada que dê mais orgulho a um nativo da ex capital de Moçambique Português, ou até somente ao residente com tempo suficiente para a ter amado, que dizer-lhe: “Tu és um Coca-Cola.”

Fonte das imagens: Delagoa Bay

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