
Faz hoje 44 anos que assisti em parte, ao que foi o dia 21 de Outubro de 1974, com a revolta dos Comandos na baixa de Lourenço Marques, em fogo cruzado com a Frelimo, cujas balas deixaram marcas em vários edifícios, e noutros, por serem revestidos a mármore, as balas faziam ricochete e atingiram mortalmente inocentes, outros que conseguiram fugir para baixo de carros, para dentro de lojas, enfim “o fim do Mundo”!
Em memória de todas as pessoas cujas vidas lhes foram ceifadas, sem apelo nem agravo, deixo como homenagem um excerto do texto escrito por Jorge Jardim, que relata bem este acontecimento.
Quis o destino que eu estivesse hospitalizada com uma peritonite à espera que o Dr. Maldonado me operasse e por isso não tinha ido à baixa!!! Mas vi o caos no Hospital nessa tarde…
Moçambique Terra Queimada (xi)
“No acto de posse, o Presidente da República conferiu-lhe a missão de “conduzir o processo de descolonização, com patriotismo, no respeito pelo nosso passado, pelos nossos maiores em África, e, acima de tudo, pela bandeira verde-rubra da Pátria, para que o novo Estado de Moçambique venha a ser efectivamente uma nação de expressão lusa e indestrutivelmente ligada à Mãe-Pátria” (cito de um semanário lisboeta, de 14 de Setembro de 1974).
Foi isto que o Alm. Vítor Crespo jurou solenemente, por sua honra, fazer.
E foi isto o que não fez.
Logo em 21 de Outubro seguinte, aconteceu que uma unidade de “comandos” (farta de insultos incompatíveis com a sua dignidade) tomou desforço, quando foi provocada nas ruas de Lourenço Marques. Daqui nasceu a retaliação horrorosa que causou centenas de mortos entre a população indefesa, conforme os insuspeitos relatos da imprensa internacional. Houve carros incendiados, com os seus ocupantes dentro. Houve violações e violências em que todos os excessos se cometeram. Houve corpos trucidados em condições horripilantes.
O primeiro-ministro Joaquim Chissano chorou convulsivamente, no Hospital Miguel Bombarda, ao deparar com o macabro espectáculo que os médicos lhe mostraram.
O Alto Comissário, a quem pertencia a responsabilidade de defender a ordem pública (nos termos do acordo Machel-Antunes), não fez um movimento para proteger essa pobre gente que foi chacinada. Consentiu que os “comandos” fossem indignamente acusados de “irresponsáveis drogados” e não teve uma palavra de conforto para as vítimas imoladas. Nem um só dos responsáveis pelos morticínios foi detido, inculpado e presente a tribunal.
Assim mantinha a ordem e a paz que jurara preservar!”
Escrito por Jorge Jardim






Deixe um comentário