Crónica 15. O Restaurante Costa do Sol.

Crónica 15. O Restaurante Costa do Sol.

O Restaurante Costa do Sol, no final da Marginal de Lourenço Marques, foi fundado em 1938.

O Restaurante Costa do Sol como era pouco depois da sua inauguração em 1938. Note-se que o edifício era ainda somente uma parte do que se conhece actualmente. Ficou na posse da Família Petrakakis a partir de 1939.

Neste ano, a estrada asfaltada inicial a partir do Peters/Ponta do Mar atingiu a Costa do Sol. A construção do restaurante iniciou-se em 1937. Foram seus primeiros donos o Sr. Oliveira (da Auto-Pronto), o Sr. Santos (gerente da Fábrica das Massas), o Sr. Boavida (da Casa Vidago) e o Sr. Tavares (oficial maquinista de um costeiro).

O edifício foi comprado em 1939 por Gerasimos Petrakakis, de nacionalidade grega, que chegara a Lourenço Marques em 1938. Petrakakis introduziu melhoramentos e sucessivos aumentos, chegando a transformar o restaurante em hotel.

Em 1938, Petrakakis deixou Rethymo, na Grécia, e emigrou para Moçambique, após convite do seu tio Kyriakakis para trabalhar no Hotel Central. No entanto, passado pouco tempo Petrakakis decidiu abrir o seu próprio negócio. Comprou um antigo salão de chá e pediu emprestado ao seu tio o equipamento necessário, tais como talheres, mesas e cadeiras, de maneira que em 1939 o “Costa do Sol” abriu portas.

Membros da comunidade grega de Lourenço Marques nas escadas do Restaurante Costa do Sol, nos anos 50.

Indubitavelmente, o mais famoso e um dos mais antigos restaurantes de Lourenço Marques, que se transformou num ponto de referência da Cidade até 1975 e muito para lá desta data, foi o “Costa do Sol” de Gerasimos Petrakakis.

Na ponta norte da Avenida Marginal, permanecia aberto durante o dia e de noite, servindo os cliente do casino adjacente. De início, era somente servido chá. Pouco depois, o “Costa do Sol” transformou-se em restaurante e mais tarde Petrakakis também construíu o hotel. Nessa época, as infraestruturas em Lourenço Marques eram escassas, o fornecimento de água e energia mais próximo ficava a 9km!

Mesmo assim, perante estas dificuldades, Gerasimos Petrakakis manteve o restaurante aberto 24 horas por dia, servindo os “camarões à Lourenço Marques” que acabariam por se tornar o prato mais famoso do restaurante.

O Restaurante Costa do Sol tal como era nos anos 50.

O “Costa do Sol” ganhou também fama pelo divertimento que oferecia, apresentando espectáculos com dançarinas dos cabarets da Cidade.

Nas décadas seguintes, a elite política e empresarial, não só de Lourenço Marques mas também da vizinha África do Sul, passou a frequentar o restaurante grego. Por ali passaram espiões nos anos 30 e 40, personalidades políticas, como a família real Swazi ou astros da música como Tom Jones em décadas posteriores, que o “Costa do Sol” acolheu nas suas salas bem como na típica varanda Arte Deco com vista para o Índico e para a Ilha Xefina.

Ao longo dos tempos tornaram-se uma tradição as festas de casamento e os bailes ali oferecidos aos clientes, momentos inesquecíveis para quem lá dançou valsas, tangos, rumbas e outras danças de salão.

O Restaurante Costa do Sol tal como era no início dos anos 60.

O Restaurante Costa do Sol, gastronomicamente, ficou famoso e marcado por um único prato de marisco: Camarão Tigre Grelhado, ou, como dizem os anglo-saxónicos que o tornaram conhecido em todo o mundo, “LM Prawns”. Em Lourenço Marques, o restaurante do grego Petrakakis estabelecia o padrão, era o pináculo do camarão tigre, servido grelhado (ou assado) na brasa!

Mas não se comia excelente camarão tigre grelhado na Cervejaria Piri-Piri, na Cervejaria Nacional e em tantos outros “templos” do marisco em Lourenço Marques? Com certeza que sim!

O Restaurante Costa do Sol em foto monocromática tirada nos anos 60.

Porém, e há sempre um “porém” ou um “mas”, não é só da matéria prima (sólida e líquida) e da sua preparação que o espírito se alimenta! No ritual da degustação que eleva o espírito do comensal, impelindo-o para o divino através de sensações do palato que atingem êxtases sublimes, são também centrais e influentes o espaço onde ele tem lugar, o ambiente do interior e a largueza, riqueza e qualidade visual da envolvente exterior, a localização!

E em todos estes três factores acrescidos, nada em Lourenço Marques, durante décadas, chegava perto daquele restaurante grego na Costa do Sol!

Um outra panorâmica do Restaurante Costa do Sol nos anos 60.

Ali – olhando a Baía do Espírito Santo e a vasta superfície de água índica em tons de azul e cinzento a perder de vista, onde ancoravam os navios antes de acostarem ao Cais Girão, em frente ao enorme parque de estacionamento enquadro por dunas e casuarinas – sentados na ampla sala interior ou na varanda da esplanada elevada no exterior, não era somente o repasto dos frutos do mar que surtia o efeito mágico! Era além disso, muito por “culpa” do serviço de mesa polido, dedicado e profissional, o sentimento que se era, até se sair depois de pagar, a pessoa mais importante do mundo!

A esplanada do Restaurante Costa do Sol, sobre a placa de cobertura, em foto monocromática dos anos 60.

E a sofisticação emergia, fazendo esquecer que estávamos em África, no fim da noite de luar na varanda ao sabor de um bom uísque, observando o movimento dos transeuntes, o mar e os barcos ancorados na baía …

O Restaurante Costa do Sol continua a funcionar em Maputo, se bem que já não propriedade da família Petrakakis. Segundo nos contam testemunhos que o visitam, continua a oferecer um magnífico cardápio, adequado às emoções fortes, onde se destacam a salada Roquefort e o Marisco Misto à Costa do Sol.

O parque de estacionamento em frente ao Restaurante Costa do Sol no início dos anos 70.

Fontes da fotos: HousesOfMaputo, BigSlam, Delagoa Bay.

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Uma resposta a “Crónica 15. O Restaurante Costa do Sol.”

  1. Avatar de Fátima Bordalo
    Fátima Bordalo

    Não deixando de mencionar o famoso pãozinho “ papo-seco” servido quente que nos fazia comer muitos e chorar por mais ! Eram deliciosos os papo-secos! Ainda hoje consigo recordar o “ festim” que era quando o meu pai chegava a casa com um saco de papel pardo com os famosos papo-secos dentro ! Eram maravilhosos !!!

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