Nb: este artigo é dedicado a todos os ex funcionários(as) do BNU de Moçambique, quer na directoria de Lourenço Marques quer noutras filiais do BNU na ex Província Ultramarina Portuguesa.
A Carta de Lei de 27 de Janeiro de 1876, contratada entre o Estado português e o Banco Nacional Ultramarino, tinha como finalidade a prorrogação por 10 anos da administração e o estabelecimento de instituições bancárias no então Ultramar. Adicionalmente, foi outorgado o prorrogar do privilégio emissor de notas por mais 20 anos. Esta Carta de Lei também obrigava ao estabelecimento de uma sucursal em Moçambique. Nesse sentido, o BNU instalou a sua primeira dependência nessa ex-colónia na ilha de Moçambique, cuja abertura ocorreu a 2 de Abril de 1877 (3) . A escolha desta localidade deveu-se ao facto de, na altura, a ilha de Moçambique ser a capital dessa possessão ultramarina portuguesa.
Edifício do correspondente 1877/1878.
Nesse ano também foi contratado um correspondente para operar em Lourenço Marques. Este primeiro correspondente foi Joaquim Thomaz da Fonseca, comerciante e proprietário nessa localidade, onde também havia sido vereador municipal. As suas instalações de armazenamento e comerciais – onde também funcionavam os serviços de correspondente do banco – localizavam-se na Travessa da Linha (4) [Foto 1]. Os serviços do BNU disponibilizados limitavam-se à venda de consignações, de saques sobre Lisboa, Porto e outras praças financeiras portuguesas e ao negócio de prémios bancários.

A povoação de Lourenço Marques tinha sido elevada a vila em 19 de Dezembro de 1876. O crescimento da população, bem como do seu comércio, justificavam a implementação do BNU nessa povoação – também nesse ano, foi instaurada a comarca e a conservatória do registo predial. Este desenvolvimento estava relacionado com as condições geográficas favoráveis ao dinamismo mercantil que esta localidade no sul de Moçambique começava a evidenciar naquele final de século. Um desses factores era a proximidade com as ricas colónias no vizinho Transvaal.
Uma das consequências relativamente à consciência dessa ligação, da parte do governo português, foi o início do projecto de construção de uma ligação ferroviária com aquelas colónias. Esse projecto foi fomentado pelo Ministério da Marinha e Ultramar, que pretendia desenvolver as colónias africanas de Portugal. Para tal, teve como primeiro impulsionador o engenheiro militar, major Joaquim José Machado que comandou uma expedição enviada de Lisboa em 1877, para a construção e implementação, não só da ferrovia, mas também de infraestruturas importantes para a vida urbana de Lourenço Marques: a drenagem do pântano a norte da localidade, a construção de um hospital definitivo, a primeira igreja católica do distrito. Tais empreendimentos contribuíram para o aumento do perímetro urbano da vila.
Edifício do correspondente 1878-1883.
Os primeiros tempos de operação do correspondente do BNU em Lourenço Marques ficaram pautados pelas divergências daquele com o governador do banco, Francisco de Oliveira Chamiço. Por esse motivo, foi substituído no cargo por Francisco Caetano Viegas. Este antigo capitão da marinha mercante havia-se estabelecido como negociante na localidade, à semelhança de muitos outros comerciantes de diversas origens (portugueses, indianos, franceses, ingleses) que começavam a estabelecer-se na vila. Este novo correspondente do BNU também era proprietário de vários imóveis: na Praça 7 de Março (5) , na Rua dos Mercadores (6) e na Rua da Alegria (7) – foi num destes imóveis que passaram a estar instalados os serviços do BNU.
Edifício da agência 1883-1885.
No início do ano de 1883, começaram as trocas de correspondência entre o governador do BNU, Francisco Chamiço, o major Joaquim Machado e o correspondente Francisco Viegas, com o intuito de instalar uma agência do banco em Lourenço Marques. Esta necessidade tornara-se mais premente com o aumento das trocas comerciais nesta vila e com as exigências do comércio local por uma instituição bancária portuguesa para auxiliar no desenvolvimento de novos negócios e indústrias. Nesse sentido, foram tomadas medidas com o objectivo do BNU adquirir um terreno próprio na vila. Mas a urgência da agência se instalar na vila fez com que o primeiro estabelecimento fosse arrendado. Curiosamente, este arrendamento – cuja duração foi de dois anos – foi contratado pelo major Machado (8) em nome do banco e, por motivos de centralidade da sua localização, foram arrendadas as primeiras instalações do BNU nesta vila, ou seja, os imóveis na Travessa da Linha [Foto 1], propriedade do seu primeiro correspondente, Joaquim da Fonseca.
Assim sendo, a agência do BNU em Lourenço Marques abriu portas a 2 de Outubro de 1883, sob gerência interina de Francisco Caetano Viegas. Este exerceu o cargo alguns meses até ser substituído, a 1 de Dezembro, pelo primeiro gerente, Francisco Romano de Abreu Nunes, que vinha transferido da sucursal da ilha de Moçambique.
Nesse ano planeava-se a ligação ferroviária entre Lourenço Marques e a fronteira com o Transvaal, como meio de estreitar as ligações comerciais com essa região sul-africana, rica em metais preciosos e produtos agropecuários. Adicionalmente, a população autóctone de Moçambique começava a emigrar para trabalhar nas recém-descobertas minas daquela região, o que contribuía com transferências de divisas para a ex-colónia portuguesa.
Numa carta enviada a 3 de Setembro pelo governador do BNU à gerência em Lourenço Marques, para além de enunciar o seu capital inicial, afirmava que o aproveitamento comercial dessa ligação (Lourenço Marques-Transvaal), para usufruir das exportações desta região, era um dos principais desígnios económicos para a abertura da nova agência:
“(…) O primeiro Capital d’ essa Agencia é constituido pela transferencia de 15 Contos em dinheiro e 45 em notas da Succursal de Moçambique; fortalecendo-o com os creditos abertos em Londres etc.: (…). O fim do Banco é ir-se preparando para a ligação do Caminho de ferro com o Transvaal; e como será forçoso para equilibrar os saques sobre a Europa adquirir por consignação ou mesmo por compra os generos da produção do Transvaal, as suas lãas, o seu ouro, etc.: derivando para ahi, o commercio que se faz por Natal e Cabo, (…)” (9)
Edifício da agência 1885-1891.

Após a abertura em 1883, a agência de Lourenço Marques funcionou nas instalações da Travessa da Linha até 31 de Agosto de 1885, data em que terminava o contrato de arrendamento. Ciente de que o proprietário – Joaquim da Fonseca – não pretendia renová-lo, o gerente do BNU procurou nova localização para a agência e encontrou-a num imóvel na Rua da Alegria (10), esquina com a Travessa do Maxaquene [Foto 2], que se situava bastante próximo das anteriores instalações. Este imóvel foi arrendado por dois anos e a agência foi transferida para o edifício na Rua da Alegria reabrindo ao público no dia 1 de Setembro de 1885.
O ano de 1887 ficou marcado pelo aumento de novas construções em Lourenço Marques, que conduziram à demolição da antiga linha de defesa e à drenagem definitiva do pântano. Com base neste crescimento, Lourenço Marques foi elevada a cidade a 10 de Novembro (11).
Edifício da agência/filial 1891-1914.
A 31 de Julho de 1890 mudou o gerente da agência, sendo exonerado Francisco Nunes para a nomeação de Simão Infante de la Cerda. Este foi quem mandou erigir e inaugurou o primeiro edifício em terreno próprio do BNU em Lourenço Marques – lote onde permaneceu até à saída do BNU de Moçambique.
Este processo havia sido começado em 1887 pelo gerente Francisco Nunes, quando adquiriu – projectando a possibilidade de futuras instalações próprias para o banco – uma propriedade (12) denominada “Machamba dos Mouros”. Esta ficava num lote entre a Travessa da Fonte e a Rua das Laranjeiras (13). Demoras administrativas ao nível do banco e na legalização do terreno ao nível da conservatória local, adiaram o início da construção do prédio da agência. Por este motivo, o gerente Simão la Cerda somente a 15 de Novembro de

1890 contratou o empreiteiro William Blackwood, que trabalhou sob um projecto do condutor de obras públicas, João Armando José Longle.
As obras no terreno, no prédio e anexos foram concluídas em Agosto de 1891. A inauguração do primeiro edifício próprio do BNU ocorreu no dia 7 de Setembro [Foto 3].
Este prédio de dois pisos, com linhas simples, típicas da construção colonial em Moçambique, apresentava um primeiro andar rodeado de varanda. Este era onde se situava a residência do gerente, enquanto no rés-do-chão estavam os escritórios do banco, a casa-forte e a sala do público. Ambos os pisos tinham uma área de 260 m² e estavam conectados interiormente por uma escada de dois lanços. Nas traseiras do edifício, foram construídos armazéns e casas, onde se situava a secção comercial do banco.
O aliciamento das autoridades portuguesas sobre as entidades económicas e políticas no Transvaal continuava no sentido de desviar o escoamento dos seus produtos dos outros portos da África Austral, para passarem a usar o novo e ampliado porto marítimo de Lourenço Marques. Para tal contribuiu a conclusão da linha ferroviária até à fronteira em Ressano Garcia, a 30 de Abril de 1890. A ligação até Pretória demorou mais tempo a ser concluída e somente foi alcançada no ano de 1894. A ligação com esta importante cidade do Transvaal contribuiu para o aumento das transacções de mercadorias e mão-de-obra por essa via e, por consequência, a expansão da própria cidade de Lourenço Marques.
Este aumento das transacções comerciais no sul de Moçambique, auxiliado pelo fim da guerra de Portugal com o reino de Gaza, em meados de 1897, incrementou a importância de Lourenço Marques, que começou a afirmar-se como o centro político e económico de Moçambique. Foi disso exemplo, o facto de aquela ter passado a ser a capital colonial de Moçambique a 1 de Dezembro de 1898.
A comparação entre a evolução das operações bancárias entre a sucursal da ilha de Moçambique e a agência de Lourenço Marques para os anos de 1890 e de 1900 é disso exemplo:

Tendo em conta este aumento no volume de negócios, a administração do BNU decidiu passar a dependência do BNU na cidade a caixa-filial da colónia, a partir de 1901. Por sua vez, a sucursal da ilha de Moçambique foi convertida em agência.
Como banco emissor para as ex-colónias, as primeiras notas a circularem em Lourenço Marques – como mencionado anteriormente – foram lançadas em 1883 e eram originárias das sucursais da ilha de Moçambique e da de S. Tomé. Devido ao dinamismo económico da dependência, esta começou a ter também notas emitidas com a sua designação. Essa emissão foi designada ‘emissão “Agencia em Lourenço Marques”’ e foi colocada em circulação no ano de 1897, teve posteriormente segunda emissão em 1906.
Este aumento do volume de circulação que o banco imprimiu junto do meio económico do sul de Moçambique revelava uma reacção ao desenvolvimento e às necessidades fiduciárias do público e dos agentes económicos na região, mas continha também uma opção geopolítica para retirar do meio circulante a moeda estrangeira que era transaccionada no distrito de Lourenço Marques. A baía de Lourenço Marques (14) (Delagoa Bay para os ingleses) e a sua região envolvente atraía, desde finais do século XIX, uma forte presença de comerciantes de várias paragens (ingleses, franceses, boers, indianos), atraídos pelas condições favoráveis do seu porto natural. Esta presença plurinacional conferiu à região uma aura e imagem internacional, mas também a disputa pela posse deste território entre portugueses e ingleses. Esta parcela de território do litoral acabou por fazer parte do estreito sul da antiga colónia portuguesa de Moçambique. No entanto, a presença e a influência económica do Reino Unido manteve-se durante várias décadas. Um desses exemplos foi o emitir de libras portuguesas para traduzirem o ouro utilizado pelas então colónias britânicas e que circularam em Moçambique entre 1906 e 1924.
Edifício da filial 1914-1958.
A expansão urbanística (15) e económica da cidade tornou premente a necessidade de ampliação das instalações da filial do BNU, que começavam a ficar exíguas. O aumento de clientes a ocupar as salas de acesso ao público, as divisões para o pessoal que também começavam a ser insuficientes para o serviço, dificultavam o funcionamento harmonioso da actividade bancária. Este necessário aumento de dimensões acabou por suceder em 1914. O seu estudo e projecto foram delineados pelo arquitceto José Cristiano de Paula Ferreira da Costa e – por indicação da administração do banco – com a finalidade dos serviços permanecerem no mesmo edifício da Rua das Laranjeiras. As obras foram executadas pelo construtor Paulo Conte e ficaram concluídas a 30 de Maio de 1914. A inauguração e abertura ao público das instalações renovadas ocorreram a 1 de Junho.

Este edifício tinha uma fachada Beaux-Arts, característica da época, que conferia um estatuto de seriedade próprio da instituição. Esta era formada por colunas jónicas que ladeavam as três portas de entrada; nas extremidades ficavam as janelas gémeas, encimadas com ornatos com motivos alusivos à ideologia marítima do BNU (âncoras, brasão nacional, esfera armilar) [Foto 04].
Estas obras aumentaram as casa-fortes e a área do piso térreo (dos serviços e do atendimento ao público), que ficou com 540 m² – mais do dobro da anterior. No primeiro andar, a dimensão da área manteve-se, foi incluída uma casa-forte e foi eliminada a varanda, entaipando-se as janelas.
Edifício provisório da filial 1958-1964.
Em 1960, a população de Lourenço Marques cifrava-se nos 177.929 habitantes. A cidade passara por duas guerras mundiais e períodos de expansão económica, bem como de estagnação. As dificuldades sócio-económicas em Portugal fizeram com que muitas famílias se estabelecessem em Moçambique e, no caso da sua capital, aumentar a sua população, atraídos pelo acréscimo e modernização de infraestruturas e do dinamismo económico moçambicano, que continuava a ser favorecido pela proximidade económica da África do Sul e da Rodésia do Sul (16). A implementação de novos hotéis para acolher o fervilhante turismo que provinha dessas regiões, foi disso exemplo.
Fruto do aumento da população de Lourenço Marques, novos bairros residenciais na cidade sucediam-se, ocupando cada vez mais as suas áreas limítrofes e aumentando a presença de novos serviços e comércio. A título de exemplo, o desenvolvimento do Alto-Maé, no Oeste da cidade. Nesse subúrbio, o BNU abriu nova a agência a 4 de Maio de 1959, no sentido de se sediar nesse mercado emergente.
Nas décadas de 1950-60, a modernização e alargamento do edifício da filial de Lourenço Marques tinha-se tornado cada vez mais urgente para a administração do BNU, tendo em conta o volume de negócios que esta filial tinha vindo a dar ao banco. Este progresso era incompatível com um edifício de filial que, apesar de esteticamente apelativo, não possuía a totalidade das funcionalidades necessárias. Efectivamente, parte dos serviços que inicialmente operavam no rés-do-chão tiveram de ser transferidos para o 1º andar e, inclusive, ocupar um outro edifício exterior à filial na Avenida da República (17). A secção comercial, nos armazéns nas traseiras da filial, tinha sido extinta e substituída pelo arquivo do banco.
Para um futuro edifício, o projecto foi atribuído ao arquitecto José Gomes Bastos. Este inseria-se na denominada “2ª geração de arquitectos modernistas portugueses”. Por este motivo, a visão que apresentou para o novo edifício seria para imprimir precisamente essa modernidade, que constatou que estava ausente no urbanismo e arquitectura de Lourenço Marques de então.

Este primeiro ante-projecto foi apresentado aos serviços do banco em 1954 [Foto 05]. Um ano depois, uma versão ampliada deste ante-projecto foi aprovada – esta tinha em consideração a ampliação e regularização dos limites do terreno da intervenção, através de expropriações e demolições de construções existentes (18), de modo a ampliar a propriedade onde se situava a filial. Em meados de 1957, foi assinado o contrato para construção e acabamentos da filial do BNU em Lourenço Marques.
Para garantir o funcionamento da filial durante o período de construção, o BNU alugou as antigas instalações dos Serviços de Fazenda na cidade, sitos na Avenida da República, para onde transferiu os serviços da filial [Foto 06]. Estas instalações eram insuficientes para o volume de trabalho e espaço necessário que o BNU Lourenço Marques necessitava, mas foi a solução disponível de modo a que os trabalhos de edificação não se atrasassem. Assim sendo, a 17 de Abril de 1958, iniciou-se o processo de transferência dos serviços para as instalações provisórias, sendo este concluído no dia 28.

Edifício da directoria 1964-1975.
Em 1958, as demolições necessárias estavam concluídas e o início dos trabalhos de construção ocorreu nos finais desse ano, inícios de 1959. Foi também no mês de Março de 1959 que a filial do BNU de Lourenço Marques foi elevada à condição de directoria.
O projecto e a decoração do edifício ficaram a cargo, como se mencionou, do arquitecto José Gomes Bastos. Este teve a colaboração na fiscalização do eng. João Chaby e o apoio do agente técnico de engenharia civil Perdigão Silva – ambos dos quadros do banco.
A consolidação dos alicerces onde se iria construir o imóvel ficou a cargo da firma Christien & Nilsen, sendo que foi executada num ano e meio. A elevação do edifício foi atribuída à Sofil – Sociedade de Fomento Imperial, S.A.R.L., com sede naquela cidade. Estes trabalhos, incluindo os de decoração, foram executados em cinco anos e meio.
Em correspondência presente no arquivo histórico do BNU, detecta-se uma orientação, ou pelo menos, uma intenção da parte dos promotores da obra (o BNU) em recorrer essencialmente ao trabalho e ao contributo empresarial de trabalhadores e empresas moçambicanas. Mesmo ao nível das contribuições artísticas, estas foram promovidas via concurso do próprio banco, fiscalizado pelo arquitecto da obra (José Gomes Bastos), privilegiando artistas sediados localmente. Esta intenção seguia a filosofia do banco, que alinhava com o discurso dominante de então do Estado Novo, de uma valorização do Portugal como nação transcontinental e, para tal, utilizando os recursos das suas colónias ultramarinas como forma de enriquecer e glorificar a nação. Apesar disso, constata-se que nas contratações finais, apesar de existirem muitas empresas locais e outras sediadas em Portugal continental, verificam-se também contratos com empresas britânicas e sul-africanas.
No ano do centenário do BNU (1964), foi inaugurado este edifício moderno e imponente (11.530 m²) situado na Baixa da Cidade, que ocupava a quase totalidade do quarteirão entre a Avenida da República e a Rua Consiglieri Pedroso [Foto 07].

Este edifício tinha a forma de anel rectangular com 3 frentes urbanas – a terceira dava para a Travessa das Laranjeiras (19). Tinha 7 pisos no volume que dava para a Avenida da República – sendo, por isso, o de maior altitude. No volume para a Rua Consiglieri Pedroso, tinha 2 pisos à face da rua e 6 pisos recuados, de modo à sua dimensão se comportar com a largura mais estreita desta via.
O prédio era servido por nove elevadores e, à data da sua inauguração, os pisos do edifício da filial eram distribuídos da seguinte forma:
Piso de cave
A entrada para o piso era realizada pela travessa lateral pedonal (Travessa das Laranjeiras), onde se situava, primeiramente, o centro de segurança e controle. Esta era a entrada utilizada pelos funcionários do banco para o acesso às quatro habitações do pessoal técnico permanente para o centro lúdico e para a recepção da administração. Esta dava também acesso ao piso de cave, a partir da qual os funcionários tinham ligação vertical reservada com os pisos superiores e onde tinham o seu local de trabalho. Neste piso, encontravam-se também os vestiários, as instalações técnicas (centrais de emergência, pneumática e eléctrica), o economato, o arquivo histórico (20) e as casa-fortes do banco [Foto 8] – estas tinham ligação de escada e ascensores privativos para o tesoureiro da filial. Numa outra secção, pública e sem conexão livre com as áreas atrás descritas, estava a sala dos cofres de aluguer e o seu balcão de atendimento. Tanto as casa-fortes, como os cofres de aluguer foram fornecidos pela empresa Chubb’s.

Piso térreo
O atendimento ao público era efectuado pelo piso térreo com entradas nas frentes opostas que davam para as artérias principais, Av. da República [Fotos 9 e 10] e Av. Consiglieri Pedroso. Este piso era ocupado pela sala do público, que aí tinha contacto com o balcão de atendimento, onde se encontravam as caixas, o expediente e a secção de letras. As duas entradas eram unidas por uma parede contínua de 80 x 4,5 m com um mural gravado em mármore, alusivo à tomada de Tânger da autoria de Francisco Relógio (21) [Fotos 11 e 12]. A zona central do piso, onde se encontrava o balcão [Fotos 13], estava coberta e iluminada por uma abóboda translúcida – duas pinturas de 30 m², da autoria de Garizo do Carmo (22), decoravam os tímpanos laterais dessa cúpula [Foto 14]. Num dos átrios, encontravam-se expostas, na parede de fundo, três esculturas em bronze da autoria de Maria Manuela Madureira (23).






Primeiro andar
Este piso apresentava-se num largo saguão ladeado com vários balcões de atendimento ao público: as secções de saques, transferências, créditos, informações e caixas do estado. A ocupar o topo sudeste do piso, encontrava-se uma pintura a óleo de grandes dimensões (13×2 m) da autoria de José Freire [Foto 15]. Existia também uma zona reservada a funcionários, onde operavam serviços internos do banco: secretariado do economato, contencioso e sua secretaria, arquivo corrente e contabilidade.

Segundo andar
O piso da administração tinha no seu centro um grande vestíbulo de representação. Na parede sudeste deste, estava afixado um painel decorativo (13×2 m) a óleo, da autoria de Garizo do Carmo [Foto 16]. Em torno daquele vestíbulo, encontravam-se as áreas de trabalho da administração, da direcção, da Inspecção Local, da contabilidade e a sala do Conselho. Esta última tinha um painel de azulejo que reproduzia uma das tapeçarias de Pastrana (24) [Foto 17]. A ligar a cave, onde se encontravam os cofres para aluguer, passando pelos pisos intermédios, até ao segundo piso, onde se encontrava a administração, existia uma monumental escadaria helicoidal [Foto 18]. Uma das paredes que acompanhava essa escadaria estava ocupada por um painel de 300 m², em mosaico de vidro de Murano tipo Bizantino, reproduzindo um cartão da autoria de Estrela Faria (25) [Foto 19].




Terceiro andar
Este piso continha a secretaria dos serviços de pessoal, de obras, os Serviços Clínicos e o Centro Lúdico – sendo estes dois últimos, os que ocupavam a maior parte da área deste piso. Os Serviços Clínicos constituíam-se de uma policlínica com salas de consultas, de exames (incluindo imagiologia) e de tratamentos. Com o objectivo de proporcionar uma maior valência e bem-estar aos seus trabalhadores, o BNU disponibilizava nestes serviços uma grande variedade de especialidades médicas, que incluíam ginecologia, otorrinolaringologia, estomatologia, entre outras. Existiam também uma secretaria, uma farmácia e um arquivo corrente.
O Centro Lúdico continha várias divisões destinadas ao lazer dos funcionários do banco, com áreas de interesse na cultura e no desporto. Para tal, tinham: sala de ténis de mesa, de bilhares, de jogos de mesa, de conferências/festas, de projecção audiovisual, uma biblioteca, dois bares e um terraço de convívio. Nesta área ficava também a direcção do Centro. Uma das paredes do salão de festas era ocupada por um painel a óleo, da autoria de Malangatana Valente Ngwenya (26) [Foto 20]. O painel de 2×4 m, exposto na biblioteca, era da autoria de Bertina Lopes (27).

Quarto andar
Este piso apresentava duas áreas distintas. Uma área albergava as residências pessoais para os funcionários técnicos do banco – electricista, mecânico, chefe de conservação e chefe de segurança – voltada para a frente da Avenida da República. A segunda área comportava os serviços mecanográficos do banco, voltada para a Rua Consiglieri Pedroso.
Quinto andar
À semelhança do piso anterior, este também se encontrava dividido nas duas áreas distintas mencionadas. No entanto, os serviços internos do banco que funcionavam neste piso eram os de relacionamento e inutilização de notas, conservação do edifício e os serviços de assistência social.
Sexto andar
Este piso era composto por um volume recuado sobre a frente da Avenida da República e que continha a zona de recepção da administração, com vestíbulo, salão e sala de jantar. Neste também se situava a cozinha e os seus anexos de apoio. Este piso possuía, num dos seus frontispícios, um vasto terraço com vista nordeste da cidade.
A descrição dos interiores da filial do BNU em Lourenço Marques revela uma tendência que na década de 1960-70 era observada pelos responsáveis do banco: a de enriquecer e decorar os edifícios do banco com exemplares de arte moderna, ao mesmo tempo que mantinham presentes decorações alusivas ao período dos Descobrimentos quinhentistas, como era o caso do mencionado painel das tapeçarias de Pastrana (28). Esta opção ia de encontro com o desígnios e a função mercantil, ultramarina que serviu de motor fundador do banco e que se manteve durante a sua existência, como principal e único banco emissor para as então colónias portuguesas.
Existiam outros exemplares de obras de arte presentes na decoração do edifício da filial e da autoria de outros artistas. No exterior da entrada principal, encontrava-se um painel com 8x5m em cerâmica policromada em baixo-relevo, da autoria de Querubim Lapa (29). Outros artistas expostos nas paredes e salas da filial foram: Rolando Sá Nogueira (30), João Ayres (31), Dana Michahelles (32), Araújo Soares (33), João Paulo (34), José Pádua (35), entre outros. De salientar, como atrás se referiu, que a quase totalidade destes artistas foram seleccionados, tendo em consideração o facto de estarem sediados em Lourenço Marques – apesar de serem quase todos de origem europeia. Esta evidência traduz também a forma como o discurso oficial do regime se contradizia face à vivência quotidiana na sociedade colonial de Moçambique, onde a realidade étnica e das oportunidades concedidas, a maioria das vezes, não era em conformidade com o lema da “nação una e indivisível”.
Este edifício da filial de Lourenço Marques foi inaugurado a 25 de Julho de 1964. A cerimónia de inauguração contou com a presença de Francisco Vieira Machado, governador do BNU, do almirante Américo Tomás, Presidente da República, do comandante Peixoto Correia, ministro do Ultramar, do general Costa e Almeida, governador-geral de Moçambique, e de D. Custódio Alvim Pereira, arcebispo de Lourenço Marques, entre outros convidados representantes da sociedade civil, militar, eclesiástica e empresarial de Moçambique colonial de então – o que atestava a importância desta efemeridade para a economia local.
Na altura da inauguração, trabalhavam na filial do BNU em Lourenço Marques 466 funcionários.
Este edifício foi o último no qual o BNU centralizou os seus serviços na cidade de Lourenço Marques.
Os Acordos de Lusaka (36), entre Portugal e o movimento de libertação de Moçambique, FRELIMO, determinaram a independência de Moçambique a ocorrer a 25 de Junho de 1975. Estes Acordos estabeleciam também a criação de um banco central para o novo país, para o qual foram transferidos os activos e passivos do departamento moçambicano do BNU. O edifício da filial do BNU em Lourenço Marques também foi transferido e passou a ser a sede do Banco de Moçambique – o novo banco central para Moçambique. O nome da capital moçambicana também foi mudado e passou a denominar-se Maputo, a partir de 13 de Março de 1976.
(1) Gabinete do Património Histórico da Caixa Geral de Depósitos .
(2) A CGD é a entidade que absorveu o BNU.
(3) A presença do BNU na ilha de Moçambique já se encontrava representada nessa cidade desde 3 de Junho de 1868, através de um agente.
(4) A partir de Dezembro de 1885, adquiriu o topónimo de Travessa da Fonte.
(5) 4 Actual Praça 25 de Junho.
(6) A partir de 1888, adquiriu o topónimo de Rua Araújo, alterada posteriormente para Rua do Major Araújo. Actualmente, tem a denominação de Rua do Bagamoyo.
(7) Mais tarde, adquiriu o topónimo de Rua D. Luís I. A partir de 1910, passou a Rua Consiglieri Pedroso (ver nota 9).
(8) Coincidentemente, o major Joaquim José Machado era tio de Francisco José Vieira Machado, que veio a ser governador do BNU entre 1951 e 1972.
(9) COELHO, Avelãs (dir. ed.) – Papel-moeda para Moçambique 1877/1973. Lisboa: B.N.U. Serviço de Documentação, Arquivo e Biblioteca, 1977 (p. 69).
(10) A partir de 27 de Julho de 1888, adquiriu o topónimo de Rua Lapa e, mais tarde, Rua Joaquim Lapa. A metade ocidental desta rua (dividida entretanto pela Praça 7 de Março, actual Praça 25 de Junho) converteu-se na Rua Consiglieri Pedroso (ver nota 7).
(11) Por meio de Decreto Régio dessa mesma data.
(12) A aquisição havia sido celebrada a 10 de Dezembro de 1887, por escritura entre o BNU e o seu proprietário, Jamú Assane, mercador sediado no norte de Moçambique.
(13) Mais tarde, Travessa das Laranjeiras. No início da fundação de Lourenço Marques, esta denominava-se Rua da Gávea.
(14) Atual baía de Maputo.
(15) Em 1902, Lourenço Marques passou a ser dotada de um serviço de carros eléctricos, o qual se juntou aos já existentes de água canalizada (1895) e energia eléctrica (1897). A cidade possuía 13.553 habitantes em 1913.
(16) Actual Zimbabué.
(17) Actual Avenida 25 de Setembro.
(18) Estas foram outorgadas pela Portaria n.º 11 141, de 12 de Novembro de 1955.
(19) Após a inauguração em 1964, esta mudou o seu topónimo para Rua do Banco Nacional Ultramarino. Actualmente tem a denominação de Avenida Karl Marx.
(20) Denominado de “Arquivo morto” pelos serviços do BNU nas décadas de 1960-70.
(21) Artista plástico português (1926-1997). Além da pintura, também criou obras em cerâmica, desenho e azulejo; dedicou-se, inclusive, à cenografia teatral.
(22) Artista plástico português (1927-). Além da pintura, trabalhou também nas áreas da arquitectura, decoração, escultura e artes gráficas.
(23) Escultora portuguesa (1930-).
(24) Conjunto de tapeçarias de grandes dimensões, datadas do séc. XV, que retratam a tomada de Tânger e Arzila pelo rei D. Afonso V.
(25) Pintora portuguesa (1910-1976), que também se destacou na pintura mural.
(26) 5 Pintor moçambicano (1936-2011).
(27) Pintora e escultora moçambicana (1924-2012).
(28) Outro exemplo, entre vários existentes nos edifícios do BNU, de obra de arte com influências dos Descobrimentos mas apresentada na estética modernista, era o enorme painel de 6×5,80m, “Epopeia dos Descobrimentos Marítimos,” da autoria de Guilherme Camarinha (1913-1994), que estava exposto no hall da entrada principal do edifício sede na Rua Augusta, em Lisboa.
(29) Pintor e ceramista português (1925-).
(30) Pintor português (1921-2002).
(31) Arquitecto e pintor neo-realista português (1921-2001).
(32) Pintora italiana (1933-2002).
(33) Autor de pintura a óleo sobre folha de ouro de 3×2 m, que ficou exposta na biblioteca da direcção.
(34) Pintor português (1931-). Autor de painel de 5×3 m, que ficou exposto no gabinete da administração.
(35) Artista plástico português (1934-), destacando-se na pintura, gravura e ilustração.
(36) Assinados a 7 de Setembro de 1974.
Fontes: texto de Nuno Fernandes de Carvalho (1); fotos da Caixa Geral de Depósitos (2) e do blogue The Delagoa Bay World.






Deixe um comentário