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O Bilene

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Um dia, há muitos anos, era eu um miúdo de calções de banho, senti nos pés pela primeira vez a areia que rodeia esta lagoa, fina, suave, macia e quente. Nesse baptismo, avancei a passos lentos pela água tépida e límpida adentro, quando uma alegria inexplicável tomou conta do meu espírito.

Senti que era senhor da lagoa, naquele dia sem vivalma. Através de mim, o céu ligou-se à terra, neste caso a lagoa, a confluência cósmica levou-me a abrir os braços e a colocar as palmas das mãos rentes à água, sentindo-a, como se me fundisse com toda a extensão do espelho de água, na minha mente tudo ali ficou contido, alcansável, “meu”!

Eram momentos destes durante o crescimento, diferentes conforme cada um, que nos surpreendiam e nos davam, nós nascidos em Moçambique, a dimensão telúrica da “posse” existencial daquela terra, que nos permite hoje exprimir, em desabafo, “sou moçambicano, sou de lá”!

E cada um é-o à sua maneira!

Para mim, naquele dia, fiquei ligado – tanto quanto o homem pode estar conectado com a natureza – para sempre ao Bilene!

Mesmo a muitos milhares de kilómetros de distância, mesmo depois de décadas de afastamento forçado, a corrente lassa da ligação mental retesa-se, ela estica e torna-se forte, na presença de uma foto como esta!

E as memórias surgem … sem esforço … límpidas como se tivesse acontecido ontem.


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