Manoel Romão Pereira (1815-1894), foi um fotógrafo português radicado em Moçambique, onde viveu durante largo período tendo acompanhado o processo de transformação que foi tendo lugar na antiga colónia portuguesa durante os finais do século XIX.

As raízes da família Pereira encontram-se no Algarve, pois o fotógrafo nasceu em S. Bartolomeu de Messines, a terra do poeta e pedagogo João de Deus (nascido 15 anos mais tarde). Manoel Romão Pereira teve sete filhos de um primeiro casamento e três filhas de um segundo, realizado com a irmã da falecida primeira esposa. Um dos filhos, Salvador Villarinho Pereira (1858-1879), foi guarda-livros da empresa Mason e Perry, que explorou a pirite nas Mina de S. Domingos, no Alentejo, e este, por sua vez, foi pai do referido médico obstectra, seu homónimo, que teve consultório no Chiado. De facto, Villarinho pai só teve um filho, e nem sequer o chegou a conhecer, por ter falecido escassos meses antes do nascimento do filho e apenas meio ano após o seu casamento.

Manoel Pereira ganhou a vida como fotógrafo, num tempo em que a técnica fotográfica ia progredindo e crescendo. Foi ganhando fama como artista fotográfico, tendo algumas das suas fotos servido de base a gravuras, como era uso na época, em periódicos como o “Archivo Pittoresco – Semanário Ilustrado” e “O Occidente” . Fotografou as minas de S. Domingos, onde tinha estado seu pai. Esteve em Cabo Verde em 1877, onde foi amanuense, e, em 1881, portanto ainda antes de ter sido comissionado pelo governo português, encontra-se na Ilha de Moçambique. De acordo com a nomeação do ministro Ressano Garcia de 1889, Pereira, na altura já com 75 anos, “devia percorrer os territórios de Lourenço Marques, Inhambane, Gaza e Alto Zambeze, tirando photografias dos edifícios, monumentos, fazendas mais importantes, povoações, estações de caminhos de ferro, e bem assim dos typos das diferentes raças, régulos e indivíduos mais importantes de cada um dos paízes, e bem assim de todos os sítios, regiões ou accidentes naturais que mereçam ser reproduzidos.” E foi isso mesmo que ele fez, como documentam admiráveis fotos hoje guardadas em arquivos como o Arquivo Histórico Tropical do Instituto Nacional de Investigação Científica Tropical.
Talvez ajudado pelo mérito desse trabalho, Manoel Pereira foi, em 1891, admitido na Sociedade de Geografia de Lisboa, sob proposta de Luciano Cordeiro e outros sócios. Lembra-se que tinha sido esta sociedade a patrocinar as explorações “de Angola a Contra-Costa” empreendida por grandes aventureiros portugueses como Roberto Ivens, Serpa Pinto e Hermenegildo Capelo.

Escreve a sua bisneta Luísa Vilarinho Pereira:
” (…) Durante cerca de 15 anos, o empenhado projecto de desenvolvimento da Província Moçambique, idealizado pelo Ministro Andrade Corvo, foi transformando o arrabalde do velho presídio e terras alagadas circundantes, nos pilares da futura cidade hoje designada por Maputo. Derrubada a antiga muralha protectora do velho casario, foi decretada a extinção do pântano e traçada a quadrícula dos arruamentos do novo aglomerado urbano, livre da malária que dizimava a população local. Em Dezembro de 1887, foi inaugurado o primeiro troço do Caminho de Ferro, que ficou apenas a cerca de 8 Km da fronteira com o Transvaal. Meu bisavô, a quem fora entregue o desenho do ajardinamento da Praça Sete de Março, foi também responsável por fotografar a construção do Caminho de Ferro, obra há muito projectada mas apenas iniciada em meados de 1886.
Do arrabalde do antigo Presídio, junto à margem da baía, Manoel Pereira mudou a localização da sua Residência-Atelier para o alto do morro, frente ao Hospital e à nova Igreja em construção. Veio depois a Lisboa propor ao Ministro Ressano Garcia a Expedição Phototographica que viria a liderar por todo o Moçambique. A reportagem desta obra de vulto, executada pela engenharia militar, a par do relacionamento pacífico estabelecido com a população indígena, com quem se negociava a permanência e o ensino escolar no território, bem como a exploração do minério, teve amplo testemunho de imagem que foi servindo para modelo das gravuras, anonimamente publicadas na revista O Occidente, ilustrando textos de Augusto Castilho.

A cobiça internacional, que levou às decisões estabelecidas na Conferência de Berlim, em 1885, atribuindo soberania a quem verdadeiramente ocupasse o território, condenou este viver construtivo e pacífico. Após o Ultimatum de 1890, a visita do Comissário Régio Mariano de Carvalho teve detalhada reportagem fotográfica que registou o avanço da Agricultura praticada nos Prazos da Zambézia, bem como o funcionamento escolar para ambos os sexos, por todo o território de Moçambique. (…)”
Fontes: De Rerum Natura, Almanaque Republicano, IICT/Arquivo Histórico Ultramarino




Deixe um comentário
Tem de iniciar a sessão para publicar um comentário.