Sem Autores*

Sem Crónicas*

As tardes mágicas do Cinema Império

[iawp_view_counter]

As tardes mágicas do Cinema Império

Autor: António Manna

Estávamos em 1970 e eu vivia na Munhuana, mais especificamente na zona à volta da entrada da Rua de Goa onde se destacava a bomba de gasolina da Caltex, a Estação de Serviço Manna, propriedade do meu avô Alfredo Manna, um velho italiano fugido da Segunda Guerra Mundial, natural de Avelino, uma pequena vila perto de Nápoles.

Esta rua com nome da capital da Índia era de terra batida, atravessava o bairro da Mafalala e ia desaguar no mais popular prostíbulo da zona suburbana de Lourenço Marques, o Matlho’lhomana.

Sábado, o encontro da malta fora combinado para depois do almoço na esquina da Av. Caldas Xavier com a Rua de Goa, onde existia uma caixa com o transformador que alimentava a rede elétrica do bairro e que servia de baliza quando nós nos colocávamos à sua frente à espera dos centros do Zezito ou do Zezé, para tentarmos bater o guarda-redes com um cabeceamento eficaz. Quando alguém marcava um golo a chapa da caixa de eletricidade ribombava como um tambor e nós gritávamos em uníssono: Gooolllooooooo!

No prédio desta esquina e no primeiro andar vivia a família Martins, uma família de sete irmãos em que os cinco rapazes eram desportistas. O pai, Sr. Zeca Martins, era apaixonado pelo boxe e dentro de casa, num dos quartos, tinham um saco de areia enorme preso a um poste fixado no chão, no meio do parqué, onde os irmãos treinavam a potência dos socos. Um segundo quarto servia de ringue e era onde eu controlava o tempo dos exercícios do Jorgito e o tempo dos combates quando ele defrontava outros pugilistas para treinar. A ideia do pai era transformar os cinco irmãos em pugilistas, mas não foi assim.

Julinho, o mais velho dos irmãos, jogava futebol nos juniores do Sporting; a seguir vinha o Zezé, um super craque, com uma habilidade acima da média e que na altura foi cobiçado pelo Benfica de Portugal, treinado por Jimmy Hagan; depois o Jorgito, este sim foi o foco do Sr. Zeca que fez dele um pugilista fino e com a classe e bailado do Cassius Clay. Jorgito foi campeão de Moçambique e num combate memorável venceu o campeão da África do Sul, Curti Cooks; Nandinho, um mulato russo de cabelo aloirado, o “magurdura”, chamado assim porque era comilão e um pouco forte demais, era o meu melhor amigo, o meu protetor, ele era um pugilista nato, feroz, mas demasiado rebelde para poder ser um campeão, não gostava de rotina e para desespero do pai fugia dos treinos sempre que podia; por fim o Eunício, que nunca praticou nenhum desporto a sério, mas que mais tarde chegou a jogar futebol na Académica.

Eram 13h15 e a malta ia chegando, Nandinho, Eunício, o outro meu grande amigo Zeca Ribeiro, Zezito, o “Russo Malpelo”, Raúfo, Márito, o amigo da onça, já tinham chegado. A este grupo de rapazes que tinham uma média de idade de 15 anos, juntavam-se alguns empregados domésticos do prédio com quem convivíamos, jogávamos futebol e com quem também jogávamos ao loto ou às cartas a dinheiro. Fazia-se muita batota com números e cartas marcadas e na maior parte das vezes terminava mal com grandes discussões e boxe em algumas ocasiões.

Depois do grupo ficar completo, éramos cerca de uma dúzia, seguíamos a pé pela Rua de Goa, passámos primeiro pelo prédio onde vivia o poeta José Craveirinha, onde estavam sentados no muro os filhos Zeca e Stélio, que mais velhos do que nós ficavam a observar-nos na nossa algazarra pegada a discutir o programa duplo que iríamos assistir na catedral da imaginação, no Cinema Império.

Recorte do Lourenço Marques Gardian de 17 de Setembro de 1949, anunciando a iniciativa do empresário José Leite Magos Saramago.

Eu e o Nandinho levávamos sempre as nossas revistas de quadradinhos que já tínhamos lido para trocarmos por outras. Era um ritual no exterior do cinema efetuarem-se trocas, compra e venda de revistas. Havia várias coleções, mas as mais populares eram a Mundo de Aventuras, as colecções 6 Balas e FBI, etc. Os heróis da altura eram o Fantasma, o Mandraque o Homem Invisível, o Punho de Aço, o Major Alvega, o Kit Carson, o Bufalo Bill, etc.

Atravessávamos a Mafalala tranquilamente, era o nosso ambiente natural, conhecíamo-nos uns aos outros. Sabíamos quem eram as pessoas com que cruzávamos, onde moravam e o que faziam. Era a nossa área, cheia de histórias que ainda não se contaram.

Quando nos aproximávamos do fim da Rua de Goa, na curva surgia o Malhó como chamávamos na altura; eram corredores com dezenas de quartos virados uns para os outros com valas aqlagadas e sujas para onde as prostitutas despejavam as bacias com água suja das lavagens do seu ofício. Miúdos que éramos, tentávamos espreitar para dentro destes quartos na esperança de ver alguma cena de sexo ou o corpo nu de alguma mulher. Algumas delas metiam-se connosco e desafiavam-nos mostrando os seios ou mesmo desamarrando a capulana e mostrando o traseiro. Nós riamo-nos excitados, mas ainda com medo de enfrentar estas mulheres tentadoras.

Depois de muito voyeurismo juvenil, continuávamos o nosso caminho até onde terminava a Rua de Goa e se encontrava a Avenida de Angola. Virávamos à direita e caminhávamos mais um quilómetro até chegar ao imponente Cinema Império. As sessões começavam às 14h30 e o programa era sempre duplo. O intervalo acontecia no fim do primeiro filme.

Uma multidão enchia a frontaria do cinema e era composta por espetadores, vendedores de matorotoro, bagias, tifiosos, negociantes de revistas, carteiristas, pedintes, etc. Uma fila enorme formava-se para a compra de bilhetes e outra fila para entrar estava em andamento. A plateia custava sete e quinhentos e o balcão onze escudos.

Nesse dia o primeiro filme tinha o título de “Uma pistola para Ringo”, protagonizado por Giuliano Gemma ou Montgomery Wood, o nosso ídolo das cobóiadas e o segundo “Sabata”, com o mau de olhar felino, Lee Van Cliff. Estes filmes eram para maiores de 18 anos e nos cinemas da cidade de cimento< nós jamais entraríamos, mas no Império fazia-se vista grossa, o que interessava era vender o máximo de bilhetes.

A maioria dos frequentadores deste cinema eram negros e pessoas das zonas suburbanas, em pleno regime colonial este era um mundo completamente diferente do da cidade de cimento. O cinema Império já nessa altura era um cinema velho e degradado cujo objetivo era facturar e não havia nenhum cuidado no serviço, com o conforto ou com a higiene, mas nós éramos jovens e queríamos, por um preço mais baixo que o dos cinemas da cidade, assistir a dois filmes e para maiores de 18 anos, era o programa sagrado dos sábados à tarde.

Quem durante a semana não conseguisse arranjar dinheiro para o bilhete, já sabia que tinha que ir muito cedo para o cinema e tentar vender alguns livros de banda desenhada para poder comprar o bilhete.

Normalmente íamos para o balcão porque na plateia a animação era de tal ordem que em certas cenas os espetadores levantavam-se e ficavam a imitar as cenas de pugilato que estavam a passar no ecrã. O barulho era ensurdecedor antes e durante a projecção, sendo que nas cenas mais fortes a plateia ía ao rubro.

No balcão havia uns espaços que tinham cadeiras grandes tipo sofá, e era esse o nosso lugar preferido. Antes de nos sentarmos tínhamos que bater nas cadeiras para que as baratas caíssem, caso contrário estávamos sujeitos a que elas se passeassem pelas nossas pernas.

Apagavam-se as luzes e a maravilha do cinema envolvia-nos até ao âmago, a ponto de nos desligarmos da realidade. A acção era acompanhada de gritos e de risos de todo o tipo. Fazíamos chacota aos maus quando estes eram derrotados; riamo-nos de satisfação quando o bom da fita beijava a rapariga. Ao herói chamávamos “o rapaz” e quando as cenas mostravam uma faca a ser arremessada a plateia, num movimento geral e em sintonia, desviava-se da faca. O melhor era quando “o rapaz” esmurrava o mau, a plateia acompanhava em coro cada soco e ouvia-se o cinema inteiro a uma voz a gritar: Quê! Quê! Quê! — muitos espectadores levantavam-se das cadeiras e acompanhavam os movimentos socando no ar.

No intervalo dava para beber um refresco, mas havia muitos que gostavam de beber um género de iogurte de cor alaranjada que era vendido em garrafas de meio litro e que se chamava “Masse”. Era uma bebida muito nutritiva e muito popular na zona suburbana. Era barata, alimentava e para os pobres era o melhor.

A sessão acabava cerca das 18 horas e depois de nos reunirmos, regressávamos em grupo para casa. Já sabíamos que quando estivéssemos a atravessar a Mafalala, especialmente a zona das prostitutas, poderíamos cruzar com um bando de Mabandidos, como eram chamados os grupos de homens que andavam em bandos, com popas à Elvis e golas das camisas levantadas Eles batiam em quem apanhassem no caminho e nós teríamos de fugir e de entrar em algum quintal para nos escondermos.

Era garantido que durante a semana que começaria, a conversa seria diariamente um género de análise dos melhores momentos do programa de sábado anterior.

Hoje, quando passo em frente ao abandonado Cinema Império, viajo no tempo e lamento que este edifício histórico não tenha tido outro destino.

Fonte da foto: Delagoa Bay


Deixe um comentário

Enable Notifications OK No thanks