“Diz o meu saudoso amigo e protector Elias Avelar, que se fosse um dos felizes escolhidos para entrar na Universidade, mais rigorosa, mais selectiva e mais exigente de que há memória, seria na grande STEIA de Moçambique!
Os mais invejosos e os que vociferavam por despeito… diziam que era escravatura… talvez… mas passados mais de 57 anos, o que eu não dava para ser, ainda, um escravo da STEIA!
Eternamente grato ao Reitor, sub-reitor e a todos os docentes e colegas, que me ajudaram a fazer de mim um homem!
E já agora, e para gáudio dos maldizentes, quem se lembra do dia 31 de Dezembro, quando ninguém estava dispensado até aos números finais do Balanço – o cheiro impestivo a cerveja, com as flores daquele belo jardim, os horrorosos rolos de cabelo – antes que pudessem ter autorização para saírem para a “night”!
Pois isto era mesmo escravatura… mas no dia 3 de Janeiro ninguém ficava naquela Universidade sem ser aumentado… era obrigatório!
Que saudades!” (Texto de António Fonseca, membro da nossa comunidade e ex funcionário da STEIA, no seu mural do Facebook)
Era assim a Sociedade Técnica de Equipamento Industrial e Agrícola – STEIA, Lda., uma Instituição de Moçambique Português. Então vamos lá explicar, àqueles que não tiveram o privilégio de a conhecer, o que era a STEIA!
FUNDADORES.

O pioneiro Abel Acácio Azevedo, proprietário da CASA SPORT, nasceu na Metrópole, em Freixo de Numão, Vila Nova de Foz Côa, Distrito da Guarda, a 17 de Junho de 1881.
A sua chegada a Moçambique verificou-se em 1900, tendo desembarcado na Beira. Empregando-se no comércio, foi trabalhar para Macequesse, hoje Vila de Manica. Tinha então 19 anos.
Aos 20 anos veio para Lourenço Marques para cumprir o serviço militar, tendo ficado isento. Em seguida colocou-se como funcionário da Alfândega, tendo ido prestar serviço na Ilha de Moçambique, que nessa época era a capital da Província. Ali se conservou cerca de um ano e em Março de 1910 estabeleceu-se, sem sócios, com uma casa de artigos de desporto. Na cidade, era a segunda a existir neste género, ao qual ainda hoje se dedica. Depois, acrescentou-lhe a venda de sobressalentes para automóveis.
O primeiro estabelecimento situava-se na rua que hoje se chama Salazar, onde ocorreu um incêndio após seis meses da inauguração, que tudo destruiu. Como Abel Azevedo não possuía seguro, ficou sem nada! Contudo, coragem e força de ânimo não faltavam ao jovem pioneiro, que recomeçou de novo a vida comercial com a ajuda de alguns amigos.
Para o efeito concederam-lhe um empréstimo que lhe permitiu abrir um novo estabelecimento, o que veio a fazer na Rua Consiglieri Pedroso, onde continua desde essa época até à actualidade, com somente algumas remodelações. Mais tarde, em 1912, deu sociedade a um cunhado, Amadeu Luís Neves, voltando a ficar único proprietário em 1944.
Em 1917, Abel Azevedo resolveu alargar as suas actividades, e começou a dedicar-se à Agricultura, vindo a formar em 1922 a Sociedade Pecuária A. Neves e Companhia. Sempre desenvolvendo larga actividade, o pioneiro fundou ainda um estabelecimento para venda de Automóveis e Camiões de marca japonesa, situado na Av. do Trabalho.
Foi também o fundador da grande e conhecida firma STEIA, em conjunto com seu genro, o Eng.° Flausino Machado, e seu filho, Agno Azevedo, desligando-se da organização em 1953.
Desenvolvendo enorme actividade através de toda a sua vida — Abel Azevedo acaba de completar 88 anos — mantendo-se com excelente saúde física e mental.
É ele quem dirige a CASA SPORT, apesar da sua avançada idade!
Em 1954, é ainda Abel Azevedo quem toma a direcção total da firma pecuária, ficando seu único proprietário e passando a organização a denominar-se HERDADE DO FREIXO.
Esta fica situada a 8 quilómetros de Boane e tem a extensão de 8264 hectares. Na Herdade trabalham cerca de 400 empregados. A sua produção de citrinos — a que se dedica em exclusivo na parte agrícola — é de cem mil caixas por ano. Na parte pecuária, tem uma produção diária de mil litros de leite.
Neste sector, Abel Azevedo é coadjuvado, muito especialmente, por seu filho Agno, dando também a sua colaboração seu filho Eng.° Abel, que muito têm contribuído com a
sua criteriosa orientação para um maior e mais eficaz desenvolvimento da propriedade, cujos pomares nos oferecem belas panorâmicas.
Resta-nos ainda dizer que o pioneiro se casou, pela primeira vez, em 12 de Dezembro de 1914, com uma jovem metropolitana de quem teve três filhos: Aida, Alda e Abel.
Quatro anos após o casamento, a esposa falecia atacada pela epidemia da pneumónica. Mais tarde, em 1921, voltou a casar, também com uma metropolitana, jovem professora, D. Ester de Sousa Lobo, de quem teve mais três filhos: Ário, Alba e Agno. A todos os filhos procurou dar uma boa educação. Actualmente, o filho mais velho, Abel — Engenheiro de Máquinas e Electricidade — Director Geral da DETA 1966 e 1974 ; o segundo filho, Ário, é Engenheiro Agrónomo e Silvicultor — doutorado com 19 valores — e actualmente Prof. Catedrático do Instituto Superior de Agronomia, de Lisboa; o filho mais novo, Agno, estudou Engenharia Civil até ao 3.° Ano, dedicando toda a sua actividade às organizações paternas, sendo actualmente sócio da CASA SPORT e no estabelecimento de venda de automóveis.

Homem muito dinâmico e empreendedor, cedo se despediu dos CFM para se dedicar ao comércio. É então que, com o seu sogro Abel Acácio Azevedo, se empenha em fundar uma firma de comércio de máquinas industriais e agrícolas exemplar. Esta empresa recebeu a designação de STEIA. Para o empreendimento comercial vingar, vai aplicar a sua seriedade e ética profissionais, assim como um conhecimento técnico pouco comum à época na ex província do Índico.
Aliadas a uma indomável vontade de vencer de forma justa e leal, estas qualidades de Flausino Machado rapidamente lhe conferiram uma posição marcante neste sector económico em Moçambique. Depressa ascendeu a director da STEIA, posição que desempenhou até 1975, tendo erguido e estabelecido um complexo comercial em Moçambique de dimensão global, com uma rede de distribuição e venda, assistência técnica e serviço pós-venda, sem paralelo.
A STEIA tornou-se central no fornecimento e manutenção de maquinaria e equipamentos diversos para os empreiteiros, as constructoras e as empresas agrícolas em Moçambique, actividade que desempenhou com altos padrões de qualidade.
O Engº Flausino Machado foi também Presidente do Sporting Clube de Lourenço Marques na década de 70.
Após deixar Moçambique, foi nomeado em Portugal (Setembro de 1977) presidente da comissão administrativa da empresa – nacionalizada pelo Estado – Metalúrgica Duarte Ferreira, S. A. R. L.
MENSAGEM DO ENGº FLAUSINO MACHADO.

Segue-se a mensagem do Director-Geral da STEIA no 1º Boletim da empresa, publicado em Julho de 1966:
“Esta firma, desde o seu início, teve como objectivos fundamentais e simultâneos, dar ao capital nela investido um razoável rendimento, aos que nela servem, segurança e estabilidade, e aos nossos clientes uma prestação de serviços em moldes sérios.
Falar sobre o passado penso que não o dever fazer, pois da caminhada feita até ao presente, melhor nos podem julgar os nossos clientes e aqueles que connosco trabalham.
Sobre o seu futuro, temos um punhado de ideias concretas a pôr em execução, mas a certeza de que todos aqueles que nos lêem já estão fartos de promessas sem resultados, leva-nos a aguardar que cada uma delas se realize, para então as enumerarmos. Resta-nos, entretanto, nesta linha de conduta, falar de mais uma realidade positiva da STEIA que ora se inicia – O SEU BOLETIM.
O Boletim, já velho em pensamento mas só agora concretizado com a saída deste primeiro número, é mais uma outra modalidade de prestação de serviços aos clientes, dos que sempre nortearam como princípios básicos, a existência da nossa Organização.
Com ele se pretende informar directamente o cliente, das inovações e evoluções na aplicação do material com o qual trabalha, e igualmente do modo de obtenção de maior rendimento daquele que já tem e ainda permitir uma maior especialização de todos os indivíduos que estão em contacto directo com esse material, dando-lhes assim oportunidade de , com uma manutenção cuidadosa, baixarem o custo de produção.
Juntamente com o lançamento deste Boletim, damos a conhecer das nossas inovações, mais uma que permitirá maior aceleramento nas reparações e embaratecimento para o cliente no serviço de transporte, proporcionando o aproveitamento de uma única viagem ou mesmo a sua interrupção para satisfazer um pedido de assistência que nos seja feito. Referimo-nos a um Sistema de Comunicações, com sede em Lourenço Marques e postos móveis nos nossos carros oficiais.
Este Sistema de Comunicações vai permitir aos nossos mecânicos ocorrerem mais fàcilmente aos locais de chamadas e simultâneamente não interromperem reparações para aguardarem instruções ou peças de reposição pois tudo poderá ser resolvido sem interrupção do serviço que estiver a ser feito, evitando ndeslocações inúteis que teriam de ser pagas pelo cliente, quer por aumento do tempo de reparação, quer pelos quilómetros que deveriam ser percorridos.
Resta-nos esperar que estas duas iniciativas correspondam ao fim para que foram criadas, depois de corrigidos os erros iniciais que certamente hão-de ser notados, para o que contamos com a colaboração dos nossos clientes, o entusiasmo dos que nesta Organização trabalham e a compreensão daqueles que aqui investiram como sócios os seus capitais, para que assim a STEIA continue cumprindo os objectivos que serviram à sua criação.
Lourenço Marques, 15 de Julho de 1966
Flausino Machado”

BREVE HISTÓRIA DA STEIA.
Formada em 1953, a partir da emancipação da linha de negócio de comércio de máquinas agrícolas da empresa mãe Casa Sport, a STEIA infelizmente não teve uma história longa (1953-1975).
A sua origem deve-se à vontade de dois homens: Abel Acácio de Azevedo e Engº Flausino Machado, que acreditavam não só na sua competência mas especialmente no princípio da honestidade comercial que defendiam.
Esse princípio, que colocava a especialização como ponto de partida para que uma venda fosse efectivamente uma “venda” e não uma forma de impingir, começou por se mostrar desencorajante num mercado restricto como era então o de Moçambique.
No entanto, o Engº Flausino Machado, então já à frente dos destinos da STEIA, era demasiado convicto das suas ideias para se deixar vencer pela ambição do lucro imediato. Tinha definido os FINS, tornado obrigatória a honestidade dos MEIOS a todos aqueles que da firma faziam parte, restando-lhe, portanto, apenas a aceitação do PRINCÍPIO por parte do cliente.

Aqui se desenrolou o combate: o cliente habituado a escolher o que pretendia, não pedia opinião; a STEIA a não vender sem saber qual a aplicação e a esquivar-se à venda se esta não se coadunasse com os princípios defendidos. Algumas (bastantes mesmo!) foram as vendas que se perderam, mas a resposta era sempre a mesma: “perca-se a venda mas ganhe-se prestígio”.
Não foram necessários muitos anos para que o cliente de Moçambique tomasse consciência de que o VALOR REAL de uma máquina não residia no seu custo inicial nem tão pouco somente na sua qualidade, mas sim no RENDIMENTO EFECTIVO que dela se podia tirar ao longo da sua duração normal.
O sucesso que se seguiu demonstrou a validade da teoria de que “vender” uma máquina para a agricultura ou remoção de terras é algo mais que a venda de uma máquina: “É a venda de um serviço”. Se este não for realizado por má selecção daquela, por má assistência técnica, por falta de sobressalentes ou por qualquer outro motivo imputável ao vendedor, a “venda” perdeu o seu valor como tal, pois que o VALOR REAL da máquina deixou de corresponder ao preço pago.
Estava reconhecida a indispensabilidade da existência de boa assistência mecânica e de sobressalentes para que o valor da “venda” fosse verdadeiro. Mas como resolver esse problema num território com tão baixo número de unidades em circulação, dispersas por tão vasta região, com difíceis vias e meios de comunicação?

A formação de sucursais espalhadas pelos principais centros urbanos de Moçambique foi a resposta encontrada.
Assim, em 1954 a STEIA apareceu na cidade da Beira; em 1960 e em especial para servir dois empreiteiros que trabalhavam na zona de Tete, foi criada uma sucursal naquela cidade com a denominação de Mapel; em 1965 foi Nampula que começou a ver circular nas ruas as cores amarelo e preto indicativas da presença da STEIA.
Também Vila Pery contou desde 1958 com a presença de um mecânico especializado, que tinha ao seu dispor uma viatura completa com todas as ferramentas necessárias para as reparações no campo.
Os resultados obtidos na STEIA em Moçambique alcandoraram a empresa ao topo do comércio no ramo. O esforço despendido pelos seus fundadores, gestores e funcionários ao longo das décadas de 50, 60 e 70, entre 1953 e 1975 (22 anos) são um hino ao empreendedorismo, ao génio inovador e à vontade de vencer, à capacidade de administração e de gestão, à excelência na formação e no profissionalismo operacional, através da definição clara e da adesão permanente a uma visão, missão e princípios orientadores da actividade da empresa.

De tal forma que foi a própria Caterpillar a prestar testemuhno aos esforços envidados pela STEIA no aperfeiçoamento técnico dos seus quadros oficinais, através da deslocação a Lourenço Marques do representante da Caterpillar Overseas SA, Sr Wickert, para pessoalmente fazer a entrega do “Training Award 1973”, prémio que a STEIA obteve desde 1971. De facto, em 1972 e 1973, a STEIA foi o único representante em toda a África a receber tal título.
(baseado no texto de Acácio Augusto Lobo)
REDE DA ORGANIZAÇÃO EM MOÇAMBIQUE (1966).


A STEIA em Lourenço Marques (Sede).





Director Geral: Engº Flausino C. Machado
Gerente-Geral: Acácio A. Lobo
Gerente do Departamento de Crédito: José Manuel Lobo Coelho
Gerente do Departamento de Máquinas: Raúl F. Matos
Gerente do Departamento de Peças: Elias Avelar
Chefe do Departamento de Promoção e Vendas: António P. Neto
Chefe da Secção de Contabilidade: Carlos Faria
Chefe da Oficina: Gilberto Neto

A STEIA na Beira.


Gerente: Frederico Marques Mano
Chefe da Secção de Máquinas: Francisco Águas de Oliveira
Chefe da secção de Peças: José Pereira Cavaco
Chefe da Secção de Contabilidade: Armando M. A. Barbas
Chefe da Oficina: Celestino Fernandes

A STEIA em Nampula.

Gerente: Henrique J. Lopes
Secção de Máquinas: ângelo Souteiro
Secção de Peças: Américo Assunção
Contabilidade: Fernando Eirinha

A STEIA em Vila Pery.


EVOLUÇÃO EM MOÇAMBIQUE PORTUGUÊS.
O grupo STEIA desenvolveu desde a sua criação métodos e processos de valorização dos seus quadros que foram pioneiros em Moçambique e até no Portugal Continental, Insular e Ultramarino no seu todo.
Começando na admissão, passando pela formação, depois pela experiência em funções, sem esquecer a progressão no interior do grupo, os colaboradores da STEIA tiveram o privilégio de obter qualificações e experiência comercial neste sector de qualidade inigualada em Moçambique, diria mesmo, com a excepção da África do Sul, em toda a África sub-saariana.
Mais cedo ou mais tarde, até pelo factor crescimento da economia de Moçambique e do surgimento de novas firmas clientes da STEIA, iriam dar-se saídas de quadros qualificados para empresas concorrentes a operar no sector, assim como entradas de novos colaboradores.
Um exemplo de uma destas empresas foi a Codauto – Companhia Distribuidora De Automoveis, Sarl.
PÓS 1975 (república moçambicana).
Em Maio de 1999, foi homologada à Sociedade Comercial MBSP – Associados, Lda, a aquisição de 80% do património líquido da empresa estatal Sociedade Técnica de Equipamento Industrial e Agrícola – STEIA, Lda.
Em Maio de 2002, no quadro do processo de reestruturação do sector empresarial do Estado Moçambicano, a STEIA foi identificada para a privatização pelo Governo da República de Moçambique. Seguiu-se a abertura de um concurso, do qual resultou a adjudicação de 80% do património de duas unidades empresariais integradas na STEIA, designadas Áreas Hidráulicas de Maputo e da Beira, à REPP — Representações, Participações e Comércio Internacional, Lda. Desta privatização resultou a constituição de uma sociedade anónima de responsabilidade limitada, denominada Mecanotubos, Sarl.
Fontes das fotos e texto: revistas do Boletim STEIA dos anos 60 e 70, gentilmente digitalizadas pelo membro da nossa comunidade José Vieira, ex funcionário da STEIA.
Fonte adicional do texto: Livro de Ouro do Mundo Português – Moçambique.




Deixe um comentário
Tem de iniciar a sessão para publicar um comentário.