Sem Autores*

Sem Crónicas*

A Urbanidade

[iawp_view_counter]

O conceito de urbanidade é complexo. Existem abordagens diferentes que resultam em definições distintas. Urbanidade é utilizada com frequência em áreas de actividade, estudo e pesquisa como arquitectura, urbanismo, sociologia, antropologia, turismo ou política.

Vamos definir urbanidade sob um ângulo específico. O das pessoas e suas actividades na cidade. Porque queremos analisar Lourenço Marques em finais dos anos 50 no enquadramento deste conceito moderno, que encerra algumas dimensões que se elencam a seguir.

Senhoras vestidas à moda dos anos 50 tardios, quase na década de 60, amigas que vão às compras ou para o serviço, aproveitando momentos para conversar enquanto percorrem a pé um imaculado passeio/zebra de calçada alvinegra na Baixa, são o exemplo acabado dessa urbanidade laurentina!

1. Muitas pessoas a utilizar os espaços públicos, especialmente os passeios, calçadas, parques e praças;

2. grande diversidade de perfis humanos, interesses, atividades – comerciais, de serviços, culturais, desportivas e lúdicas -, idades, classes sociais;

3. forte interacção entre os espaços abertos públicos e os espaços fechados, tais como:

3.1 pessoas a entrar e a sair dos edifícios, nomeadamente no comércio de pequena dimensão, ao passo que as grandes superfícies tendem a interiorizar essas interacções, tal como acontece nos centros comerciais;

3.2 esplanadas e mesas nos passeios e calçadas;

3.3 contacto visual dos andares superiores através de janelas rasgadas e amplas;

4. diversidade de modos de transporte e deslocação, incluindo pedestre, bicicletas, motorizadas e motas, automóveis, autocarros (machimbombos), eléctricos, etc.;

5. pessoas a interagir em grupos em espaços dedicados e concebidos para esse fim, como parques, jardins, praças, pracetas, zonas arborizadas e com sombra, alpendres, arcadas, galerias, mesas, bancos, etc;

6. aspectos da vida quotidiana: muitas pessoas a circular numa roda viva de azáfama, indo aos seus destinos e perseguindo as suas actividades, as crianças a caminho da escola, os jovens a irem para os liceus e colégios ou a divertirem-se, os adultos a comprar o jornal, a beber café, a lanchar em pastelarias, a almoçar em restaurantes, a conversar em esplanadas de passeio, a conviver em espaços reservados como hotéis, pensões, clubes ou associações, senhoras, cavalheiros ou casais a irem fazer compras, os turistas a entrarem e a sairem de lojas, de andar mais lento e olhando em volta, etc.

Lourenço Marques continha todas estas dimensões da urbanidade em doses industriais! Era, por definição, a urbanidade dinâmica (passe o pleonasmo) de tipo ocidental capitalista, de economia de mercado, matizada até às fundações pelo tropicalismo luso que tanto atraía o turista sul-africano, rodesiano ou até europeu e americano.

Fonte da foto: Delagoa Bay.


Deixe um comentário

Enable Notifications OK No thanks