Segundo o testemunho de José Sacadura, a antiga residência do Director do Hospital Miguel Bombarda, em Lourenço Marques, foi construída no início do século XX para acolher o seu avô, Armando Sacadura Cabral. Este exerceu o cargo de Director do hospital entre 1908 e 1911, período em que a cidade ainda enfrentava os desafios das febres palustres, tão comuns na região. Para evitar confusões com um primo de nome idêntico, também médico, viria mais tarde a alterar a assinatura para Armando Cabral Sacadura.

Apesar de o edifício ter sido concebido como residência familiar, a vida em Lourenço Marques impunha sacrifícios. A esposa do Director, devido às condições de saúde adversas, permaneceu grande parte do tempo em Portugal, onde se encontrava sob os cuidados de familiares. Ainda assim, viveu por algum tempo na casa, até regressar à metrópole quando engravidou do primeiro filho. Como era habitual na época, as senhoras grávidas procuravam ter os filhos em Portugal, regressando às colónias apenas quando a criança já estava mais robusta.
Dessa forma, Armando Cabral Sacadura acabaria por viver sozinho em Lourenço Marques, mas não deixou que a residência permanecesse silenciosa. Num gesto de camaradagem e espírito de entreajuda, transformou-a numa espécie de república para os poucos médicos que então serviam no hospital, de modo a criarem laços de convívio e apoio mútuo. Posteriormente, quando foi transferido para Luanda, a família reencontrou-se e prosseguiu a sua vida, ainda que sempre com os filhos a estudar em Portugal até à adolescência.
Um dos descendentes recorda que o pai regressou a Moçambique em 1939, estabelecendo-se aí até ao chamado “Desastre”, numa clara referência ao período conturbado que antecedeu e sucedeu a independência.
Armando Cabral Sacadura tinha também uma ligação familiar ilustre: era primo direto do célebre aviador Artur de Sacadura Cabral, protagonista da histórica travessia aérea do Atlântico Sul. Esse parentesco reforça a memória de uma família que, em diferentes áreas, deixou marcas significativas na história de Portugal e dos seus territórios ultramarinos.
Após a independência de Moçambique, e já em pleno período em que a FRELIMO consolidava o poder, a casa deixou de ter a função original. Foi então “concedida” à Ordem dos Advogados de Moçambique, que viria a arrendar o piso térreo. Nesse espaço, instalou-se um restaurante de preços considerados elevados para a época, decorado com referências aos primeiros tempos coloniais e sugestivamente batizado de “1908”, evocando o ano em que Armando Cabral Sacadura assumira a direção do Hospital Miguel Bombarda.
O contraste entre o destino inicial da residência — lugar de trabalho, abrigo e convívio dos médicos coloniais — e a sua posterior transformação num espaço comercial e temático, não deixa de suscitar reflexões. Imagina-se facilmente que, se o próprio Cabral Sacadura pudesse regressar e visitar a casa onde outrora habitara, a surpresa e a estranheza seriam de tal ordem que talvez experimentasse novo sobressalto fatal.
Fonte: História & Curiosidade




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