No dealbar da década de 70, Moçambique Português era uma portentosa província ultramarina de Portugal. Para o Leste, além da África Oriental Portuguesa, só mais outras duas possessões de Portugal restavam nestes anos, Macau e Timor.
O desenvolvimento económico de Moçambique tinha disparado no início da década anterior. Naquele imenso território, desde o Rovuma à Ponta do Ouro, afirmavam-se cidades médias pelos padrões de África, como Quelimane ou Nampula. No entanto, na capital da Província e na capital do Distrito de Manica e Sofala, verdadeiramente, a pujança de Moçambique era palpável e visível a olho nú!
Depois de Lourenço Marques, a segunda cidade de Moçambique desenvolvia-se em passada rápida. A Beira era uma cidade maravilhosa sob todos os aspectos. Erguida ali encostada ao Oceano Índico, atravessada pelo rio Chiveve, ela era o orgulho dos beirenses.
A decisão de estabelecer naquele local a capital do Centro prendeu-se, certamente, com as qualidades estratégicas da costa para porto de mar. O esforço hercúleo das administrações distrital e provincial, da municipalidade da Beira e dos munícipes ao longo das décadas para regularizar as cheias do rio construindo canais de escoamento de águas, num sistema complexo, a par da secagem das terras alagadas e infestadas de mosquitos do pântano, progressivamente rodeado de malha urbana, num reforço de transformar aqueles terrenos em usufrutro dos beirenses, merece o nosso apreço e admiração.
Os luso-moçambicanos da Beira, senhores de um carácter e de uma personalidade distintos dos laurentinos, podem orgulhar-se da sua Cidade. A garra, o empenho, a criatividade, a capacidade empreendedora na indústria, no comércio e nos serviços dos que ali desenvolveram as suas actividades, nomeadamente administradores, autoridades municipais, urbanistas, arquitectos, engenheiros, empreiteiros, enfim, tofa uma população que ergueu uma das mais belas cidades da África Austral.
Um porto fulcral para a Rodésia, nó maior de vital importância da rede dos Caminhos de Ferro de Moçambique, a Beira assumiu-se como um destino turístico para rodesianos e luso-moçambicanos de outros distritos, recebidos pela hospitalidade sofisticada dos seus habitantes, tirando o melhor partido das praias e dos hotéis no Estoril. A Beira transformava-se num grande e dinâmico centro de actividade económica, com as instituições estatais, empresas, bancos, seguradoras e serviços próprios de uma capital regional exigente.
A Beira e o seu corredor tinham um futuro auspicioso pela frente. Com muita população jovem, bem formada em escolas, liceus e colégios de elevadíssima qualidade, Manica e Sofala, liderada pela sua capital, estava destinada a constituir o quarto motor de um grande país – em articulação com a sede do governo provincial e zona industrial no Sul, Lourenço Marques, com Tete/Cabora Bassa/Moatize (energia eléctrica, carvão e gás natural) no interior noroeste junto à Zâmbia e Maláui, e finalmente com Nampula/corredor de Nacala, porto oceânico de águas profundas na costa do Índico.
Na foto, datada de princípios da década de 70, vemos o edifício do majestoso Hotel Moçambique. No corpo avançado de dois andares, havia ao nível do r/c uma cervejaria, ali onde estacionam aqueles carros brancos. Em frente, do outro lado da rua, ficavam as piscinas do Clube Ferroviário da Beira.
Foi nesta cervejaria, por volta de 1967, teria eu cerca de 10 anos, que estive com meu Pai numa das suas idas à Beira em trabalho, que incluíam sempre algum tempo na STEIA. Fomos acompanhados do saudoso Sr Fonseca Ferreira, homem alto, de olhos azuis, amigo dos tempos de Vila Cabral.
Ali, sentados no conforto do ar condicionado num dia de sol muito brilhante e calor abrasador, naquele ambiente concorrido e informal mas sempre impecável e eficiente, observando o movimento da rua e a fachada do Ferrovário através da larga vidraça, saboreei os melhores camarões tigre assados da minha vida!
Ali fui feliz.




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